O sujeito escreveu bem, muito e rápido. Falo de Carlos Heitor Cony, um dos grandes da literatura brasileira, cujo centenário de nascimento é celebrado neste ano. Nascido em março de 1926, no Rio de Janeiro, trabalhou como jornalista e escritor. Ao longo de seus 91 anos de vida, encerrada em janeiro de 2018, publicou 18 romances, mais crônicas, contos, adaptações, traduções, roteiros. A lista é longa e variada.
Cony estudou no seminário Arquidiocesano do Rio de Janeiro e, pouco antes da ordenação, abandonou o curso. Essa trajetória de inquietação existencial aparece no seu romance “Informação ao crucificado”, de 1961. O quase padre ingressou depois na Faculdade de Filosofia, no Rio, mas não concluiu a graduação. Entrou para o jornalismo para cobrir férias de seu pai, o também jornalista Ernesto Cony, na Rádio Jornal do Brasil. Migrou para a redação do “Jornal do Brasil”. Passou depois para o “Correio da Manhã”, onde foi redator e editorialista. Seus artigos e editoriais contrários ao golpe militar de 1964 renderam-lhe prisões e perseguição. Ao longo do regime ditatorial, Cony foi preso seis vezes e respondeu a oito processos por “delito de opinião”. Passou um tempo fora do Brasil, num autoexílio entre 1966 e 1968. Na volta, foi convidado por Adolfo Bloch para trabalhar em seu grupo editorial. Escreveu e editou revistas de grande sucesso, como “Manchete”, “Fatos e fotos” e “Ele Ela”. Na década de 1980, dirigiu a teledramaturgia da TV Manchete.
O jornalista talentoso também foi romancista aclamado. Estreou na ficção com “O ventre”, de 1958, bem recebido por público e crítica. Com “Pessach, a travessia”, romance de 1967, arrumou encrenca com a esquerda da época, por tratar das dúvidas do protagonista Paulo Simões, reticente quanto a ingressar ou não no combate à ditadura, e depois, vítima de trairagem dos “companheiros”.
Cony dizia preferir “Pilatos”, romance de 1973. Segundo o escritor, outros autores poderiam criar qualquer um de seus livros, menos esse. Conta a história de Álvaro Picadura, vítima de um acidente de trânsito que lhe decepa o membro viril. O protagonista passa o livro todo perambulando pelo Rio de Janeiro com seu pênis decepado mergulhado num pote de álcool. Encontra miseráveis, marginais e doidos de todo tipo. O livro é de uma acidez e humor impagáveis. Depois dele, deixou de lado a literatura por pouco mais de duas décadas, retornando com “Quase memória”, de 1996, seu grande sucesso de público, responsável por recolocar o autor em evidência. O livro recebeu o Prêmio Jabuti de melhor ficção.
Numa literatura recheada de pais carrascos e truculentos, Cony segue trilha oposta, escrevendo a respeito de um pai companheiro e solidário. Veio depois o divertido “O piano e a orquestra”, também de 1996, cujo protagonista acompanha um circo mambembe pelo interior do país. Nas crônicas, tem o (a começar pelo título) belíssimo “Os dias mais antigos do passado”, de 1998. Cony é desses escritores para ser lido e relido.
Fernando Bandini é professor de Literatura