Em 2026 completam-se 40 anos do pior acidente nuclear que a humanidade já viu, ocorrido em Chernobyl, na Ucrânia. Dentre os diretamente envolvidos no processo de controle da explosão e do incêndio radioativo houve centenas de mortos e literalmente milhares tiveram suas vidas marcadas para sempre.
No entanto, como nada na vida é inteiramente desagradável (ou agradável), logo depois do acidente iniciou-se um experimento biológico também sem precedentes na história moderna; com a radiação, delimitou-se uma “área de exclusão” de 4000 km2 em torno do reator nuclear onde é proibido toda atividade humana, por ser insalubre e arriscado.
Alguns lugares específicos possuem níveis tão altos de radiação que, mesmo hoje, ficar algumas horas neles significam absorver uma quantidade de radiação suficiente para matar um ser humano adulto.
A natureza, contudo, não sabe deste fato e seus representantes sentiram-se livres para “retomar” o nicho ecológico da cidade de Chernobyl e suas vizinhanças. São árvores que nascem nas trincas do asfalto, levantando o concreto da calçada, flores e trepadeiras nas rachaduras de casas e prédios abandonados.
Junto com este reflorestamento natural vieram aves, roedores, coelhos, texugos e mesmo a fauna maior, como cervos, javalis e lobos. Estes últimos, em particular, chamaram a atenção pois, não só se expunham abertamente à radiação dos ambientes, mas sendo predadores se alimentavam de outros animais menores e radioativos!
Com esta “dupla exposição” seria de se esperar mutações grotescas em suas proles ou, no mínimo, que a radiação os deixassem estéreis e incapazes de procriar.
Bem ao contrário! Os (agora famosos) lobos de Chernobyl tiveram estudos conduzidos por dez anos e comprovadamente cresceram em população e são muito “normais” e “comuns” se comparados com seus pares “não-radioativos”. Amostras de sangue e tecidos apenas mostram adaptações semelhantes às encontradas em pacientes (humanos) de radioterapia.
Acho estes estudos extremamente interessantes e podemos através deles aprender sobre como o corpo pode se proteger de mutações e de várias doenças, inclusive o próprio câncer. Naturalmente, isso é bem útil para futuros tratamentos médicos, mas desde já se comprova o potencial que o corpo tem de se curar e mesmo de manter a saúde, desde que a “unidade corpo e mente” esteja alinhada para isso.
Aqui entra a segunda conclusão de todo este “experimento” biológico gigantesco, que é ao mesmo tempo incrível e desagradável (tal como citei no início). Creio que o principal fator que auxiliou estes lobos a se preservarem mesmo diante do risco de morte por radiação foi também um fator ambiental, ou melhor escrevendo, a falta de um fator ambiental: a intervenção humana.
Sem humanos por perto os lobos puderam lidar com os problemas de escassez de alimento, doenças e mesmo a radiação da maneira que lhes é natural, sem serem caçados, perseguidos ou demonizados por ações humanas e parece que esta foi a principal mudança que os deixa mais “fortes” e capazes de lidar com a própria vida.
Bem, desejo boa sorte para os lobos de Chernobyl e igualmente para nós, humanos, pois aparentemente somos mais deletérios para a vida selvagem do que um acidente nuclear.
Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura, com formação em medicina chinesa, osteopatia e inteligência sistêmica