OPINIÃO

A defesa do território é ato de responsabilidade planetária


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A humanidade nunca esteve tão conectada por satélites, fibras óticas e redes digitais, mas raramente se percebeu tão fragmentada. Temos globalização, inteligência artificial e uma economia mundial.

Contraditoriamente, a natureza que abriga o planeta Terra vem desaparecendo. Florestas encolhem, comunidades perdem a capacidade de se reconhecer, assim como, deixam de reconhecer o valor intrínseco do lugar onde vivem.

Há uma antiga máxima da tradição holística que diz: "somos todos um." Durante muito tempo, essa ideia foi interpretada apenas como um princípio espiritual. Atualmente, ela ganha contornos científicos, geográficos e ambientais. A compreensão de que tudo está interligado deixou de ser apenas uma intuição para tornar-se uma necessidade prática.

O poeta português Fernando Pessoa, ao longo de sua obra, sugere que o ser humano ultrapassa os limites do próprio ego quando amplia sua consciência para o universo. Em Pessoa, a identidade não é um ponto de chegada, mas uma permanente expansão da consciência. É como se a verdadeira existência começasse quando deixamos de enxergar apenas a nós mesmos.

Décadas depois, o pensamento de Edgar Morin encontra um caminho semelhante. Ao defender a ideia de uma identidade terrena, Morin propõe que o primeiro pertencimento do ser humano não é nacional, político ou econômico, mas planetário. Antes de sermos brasileiros, franceses ou japoneses, somos habitantes de uma mesma casa, o planeta Terra.

Durante séculos, imaginamos que existiam distintamente problemas locais e globais. A realidade de hoje indica que essa separação é irreal. A destruição de uma nascente afeta uma bacia hidrográfica. A degradação de uma floresta altera ciclos climáticos. A perda da biodiversidade modifica sistemas ecológicos inteiros. O local nunca permanece apenas local.

James Lovelock, cientista ambientalista e futurista britânico, ao formular a “Hipótese de Gaia”, propôs compreender a Terra como um sistema integrado, no qual atmosfera, oceanos, solo e organismos vivos interagem permanentemente para manter as condições necessárias à vida. Gaia não descreve um planeta composto por partes independentes, mas um sistema em constante autorregulação.

A linguagem da ciência aproxima-se, assim, de uma antiga intuição filosófica de que nada existe completamente isolado. A compreensão de ser um cidadão planetário exige a conscientização de responsabilidade pessoal, individual e intransferível que ultrapassa os limites administrativos do município onde mora. Suas escolhas de consumo, sua relação com a água, o solo, os resíduos e a biodiversidade produzem consequências que extrapolam o espaço imediato.

A verdadeira consciência universal começa quando compreendemos que cada gesto local reverbera no destino coletivo do planeta. A máxima "somos todos um", portanto, deixa de pertencer exclusivamente ao campo da espiritualidade. Ela encontra fundamento na geografia, na ecologia, na ciência dos sistemas e na ética da responsabilidade.

Rosângela Portela é jornalista, consultora e mentora em comunicação

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