Pensadores afirmam existir na História da Humanidade apenas três filósofos: Sócrates, Platão e Aristóteles. Todos os demais seriam irradiações do pensamento que brotou dessas três privilegiadas mentes.
Hoje, quando todos se autodenominam “filósofos”, vale a releitura desse trio, a “Santíssima Trindade Filosófica” da qual continuamos a nos abeberar.
Aristóteles me seduziu por sua ética, a partir do livro escrito a seu filho. “Ética a Nicômaco” é um tratado paternal à cria que ele queria virtuosa. Também impressiona a concepção aristotélica de virtude. Esse atributo não é um dom inato, senão o resultado de um hábito. Se a cada dia alguém vier a praticar um ato bom, ao final de certo tempo, queira-se ou não, tenha-se ou não noção disso, esse alguém se tornará um ser virtuoso.
Ao inverso, a rotina de condutas más leva a pessoa a ser abjeto. Pode-se chegar à maldade absoluta pelo hábito de fazer o mal.
Aristóteles não é inteiramente bem compreendido porque é dele a frase “in medio virtus”, que significa, em tradução livre, “a virtude está no meio termo”, está no equilíbrio entre dois polos. Assim, entre a anorexia e a gula, está o cultivo de um apetite saudável e racional. Entre a preguiça e a hiperatividade, encontra-se a mediania. Entre a sovinice e a prodigalidade, está a sensatez no gasto. E assim por diante.
Não significa a pregação da mediocridade. É o elogio ao equilíbrio, à razão sem exageros. Exatamente o que os gregos já pregavam: nada em excesso.
Mas encontro em Aristóteles uma antecipação da nossa era de IA – Inteligência Artificial. Ele afirmou, a respeito da chaga da escravidão, que era natural que indivíduos destinados a serem “senhores” se apropriassem do trabalho daqueles vocacionados a servirem.
Admitia uma única exceção: existe “apenas uma circunstância na qual poderíamos admitir administradores sem necessidade de subordinados, e senhores que não necessitassem de escravos. Essa condição seria a de que cada instrumento inanimado pudesse executar suas próprias tarefas, transformando-se num tear que tecesse por si mesmo”.
Não foi isso o que a IA nos propicia hoje? A máquina trabalhando por nós, realizando tudo aquilo que é mecânico, automático, repetitivo. Nisso, ela é muito superior a qualquer um de nós.
É exatamente isso o que fazem os robôs – e a robótica é uma área em que a surpresa está à nossa espera a cada instante. Vi na China toda espécie de robôs. Aqueles que atendem nos hotéis, carregando malas e fazendo entrega de qualquer refeição solicitada no quarto. E vi grandes shoppings de robôs humanoides e sob as mais diversas formas de animais. É de impressionar os robôs cachorrinhos, que latem, abanam a cauda, convidam para entrar na loja e seduzem não só crianças, mas também os marmanjos embasbacados com a mais avançada tecnologia.
Ora, Aristóteles viveu mais de três séculos antes de Cristo. Nada obstante pouco tenha restado sobre sua obra, o que nos chega é suficiente para refletirmos se de fato evoluímos ou nos encontramos num acelerado retrocesso em termos de valores e de conduta moral. Hoje não é possível dizer, como ele disse, baseado na observação, “que cada Estado é uma comunidade estabelecida com alguma boa venalidade, uma vez que todos sempre agem de modo a obter o que acham bom”.
O que é que os dirigentes tupiniquins, em suas várias esferas, consideram ser “bom”? Aristóteles sabia que os humanos, embora “animais políticos”, são imperfeitos: “o homem, quando perfeito, é o melhor dos animais; porém, quando apartado da lei e da justiça, é o pior de todos”.
Para refrear a podridão, há um remédio: a ética. Mas quem vive a ética no Brasil de nossos dias?
José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo