OPINIÃO

Entre espelhos e florestas


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Ao entrar na exposição "O Outro do Outro", da artista londrina Es Devlin, instalada na Casa Bradesco, em São Paulo, o visitante penetra simultaneamente na intrínseca teia da diversidade cultural humana, na identificação do outro e de si, como também em um túnel que retrata mais de duzentos animais em extinção na Grã Bretanha.

Devlin propõe uma reflexão sobre os ciclos de retroalimentação dos signos, símbolos e narrativas criadas pela própria humanidade. São múltiplos espelhos que refletem imagens, enquanto o mundo natural permanece, muitas vezes, invisível aos nossos olhos. A artista sugere que estamos aprisionados em um labirinto de referências humanas que tanto podem ampliar quanto obstruir nossa conexão com a biosfera. E questiona se ainda conseguimos enxergar o que existe além de nós mesmos.

A exposição teve como fonte de inspiração dois ícones da preservação da natureza, a ativista climática americana Joanna Macy e o escritor australiano John Seed.

Enquanto Joanna Macy afirma que: “Estamos perdendo línguas tão rapidamente quanto estamos perdendo espécies e a diversidade da etnosfera está ameaçada em paralelo com a da biosfera.” John Seed, no livro Thinking Like a Mountain diz: “Que possamos nos voltar para dentro e tropeçar em nossas verdadeiras raízes, na biologia entrelaçada deste planeta raro. Que nutrição e poder pulsem através dessas raízes e uma determinação feroz de continuar a dança de um bilhão de anos.”

A destruição da biosfera e o desaparecimento da etnosfera estão diretamente interligados, pois a diversidade biológica e cultural depende uma da outra para existir. Quando um ecossistema colapsa, os saberes humanos adaptados a ele também desaparecem. Quando uma nascente é extinta, perde-se a água e também a memória coletiva construída em torno dela. E quando uma floresta é fragmentada, desaparecem com as árvores histórias, práticas culturais, referências afetivas e formas de compreender o mundo.

Aqui, em Jundiai, a Serra do Japi representa exatamente essa interdependência. Ela não é apenas um conjunto de morros cobertos por vegetação nativa.  Preservar o Japi, além de proteger espécies animais e vegetais, significa manter uma forma de relação entre seres humanos e natureza que ainda resiste em meio à crescente artificialização da vida contemporânea.

A exposição de Es Devlin procura nos alertar para esta interdependência. Ao percorrer seus espelhos, o visitante percebe que a maior armadilha não está no labirinto físico. Está na ilusão de separação. A crença de que somos indivíduos isolados, desconectados dos ciclos ecológicos que tornam nossa existência possível. Que a qualidade de vida urbana está diretamente ligada à saúde dos ambientes naturais. E que nossa identidade cultural é construída em diálogo permanente com os lugares que habitamos.

Es Devlin sugere que ao buscar o outro talvez descubramos que parte de nós que nunca esteve separada da Terra

Rosângela Portela é jornalista, consultora e mentora em comunicação

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