Livro de crônicas de Nélson Rodrigues, “À sombra das chuteiras imortais” é dessas obras que devem ser revisitadas de tempos em tempos (e se a estação for de Copa do Mundo, melhor ainda). Trata de futebol, mas não só. Nélson Rodrigues foi, dos grandes autores de língua portuguesa, o primeiro a perceber que ali havia mais do que um jogo, e de que parte da tal identidade brasileira passava por esse assunto. Entre as décadas de 1950 e 1970, escreveu colunas semanais em grandes publicações. E não se tratava de resenhar a rodada, mas de mostrar o quanto de trágico, cômico ou passional andava embutido nessa correria atrás de uma bola.
Percebeu, por exemplo, que nós, brasileiros, sofríamos de um “complexo de vira-latas”, uma autodepreciação endêmica que percorria o país de extremo a extremo. Esse complexo nos fazia sempre zombar de nossas (poucas) virtudes e louvar a (suposta) grandeza dos gringos. Um complexo de inferioridade que a derrota para o Uruguai, na final da Copa de 1950, no Maracanã, só fez crescer. Brasileiros seríamos, na expressão do escritor, um “Narciso às avessas, que escarra na própria imagem”.
Esse complexo manteve-se na Copa seguinte, na Suíça, quando Nélson percebeu que o time brasileiro entrou em campo de cabeça baixa contra os então poderosos húngaros, anunciando logo na saída dos vestiários a derrota inevitável (e o Brasil, de fato, perdeu por quatro a dois e foi eliminado). Mas que essa síndrome sairia de campo por uns tempos, porque a Copa seguinte, na Suécia, se espantaria com um garoto de 17 anos, um certo Pelé, que o mundo reverenciaria como o melhor de todos os tempos.
De acordo com Nélson, Pelé não só exibia seu talento único como sabia que era um craque. E isso não era arrogância, mas determinação. Escreve Nélson, meses antes da Copa: “Pois bem, verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope.
Em suma, ponham-no em qualquer rancho [bloco de carnaval] e sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor”. E segue o cronista: “O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável – a de se sentir rei, da cabeça aos pés. Quando ele apanha a bola, e dribla um adversário, é como quem enxota, quem escorraça um plebeu ignaro e piolhento”. Nesse texto, datado de fevereiro de 1958, Pelé foi chamado pela primeira vez de “Rei”.
O escritor foi cunhando, ao longo do tempo, expressões que se imortalizaram. Aos jornalistas esportivos pretensamente “isentos”, tachou de “idiotas da objetividade”. Quem duvidasse da excelência do futebol nacional era chamado de “quadrúpede de 28 patas”. O colega de redação João Saldanha, a quem Nélson admirava, foi apelidado de “João Sem Medo”. O craque Didi, maestro da seleção vencedora de 58 e 62, era o “príncipe etíope dos ranchos de carnaval”. Evoé, Nélson Rodrigues. Torcedores, saudemos o mestre.
Fernando Bandini é professor de Literatura