OPINIÃO

Pés descalços


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O moço veio do nada. Errado: ninguém vem do nada. Descreio em geração espontânea.  Cada um possui a sua história e, infelizmente, milhares com oportunidades mínimas ou sem oportunidades.

Pelo sotaque nasceu em outra região, onde a seca quebra a terra e a faz estéril e dá transparência aos ossos do gado.

A gente da minha época cantou com Gilberto Gil, Luiz Gonzaga  e Fagner: “A vida aqui só é ruim/ Quando não chove no chão/ Mas se chove dá de tudo/ Fartura tem de porção/ Tomara que chova logo/ Tomara meu Deus tomara. / Só deixo o meu Cariri/ No último pau-de-arara./ Enquanto a minha vaquinha/ Tiver couro e o osso/ E puder com o chocalho/ Pendurado no pescoço/ Eu vou ficando por aqui/ Que Deus do céu me ajude/ Quem sai da terra natal/ Em outro canto não para…” Cantou com alma e sabendo da realidade do sertão.

Meu saudoso amigo, Dom José Rodrigues de Souza (1926-2012), Bispo de Juazeiro da Bahia, em nossa correspondência, via correio, enviava-me fotos das seca, do chão rachado, das lágrimas que secaram pelo quase nada de esperança. Ao se tornar emérito, resumiu a verdade de sua vida: “Nunca traí os pobres”.

O moço não deu para ficar na sua terra de ressecamento dos rios e mananciais, do aumento das fome, da miséria e das doenças. Os olhos dos avós e dos pais encolheram por falta de nuvens. Deixaram de olhar para cima. Ele, no entanto, tentou a terra prometida, onde diziam que a chuva era parceira. Assim que pudesse, traria a família toda.

Estabeleceu-se em uma viela da periferia. Alugou um quarto com banheiro no “povoado” do proprietário, onde moravam mais cinco famílias. De início fez uns bicos. Emprego de carteira assinada estava difícil porque ele tinha estudo de apenas dois anos. No bar, arranjou gente para conversa, onde lhe ofereceram um quebra-galho com valor maior. Tentou. No final da primeira semana, foi detido.

Quarta-feira passada, parou no bazar de seminovos da Associação Maria de Magdala. Estavam lá apenas duas integrantes. Pediu se não lhe dariam sapato ou tênis. Ia ao Fórum assinar carteirinha e não poderia entrar descalço. Empenharam-se o máximo, com o que havia, para que ele se apresentasse com dignidade.

Emocionei-me ao saber. A proposta da entidade foi sempre a de reconhecer em todas as pessoas, mesmo que envoltas em fuligem, uma filha ou um filho de Deus. E as integrantes também assumiram nossa missão.

Lembrei-me da homilia de nosso Bispo Emérito, no Carmelo São José, no último sábado, de que Nossa Senhora compreendeu sua grande missão ao Jesus, na Cruz, lhe dizer, que João, representando a humanidade, era agora o seu filho. Compreendo que todos nós cristãos temos essa missão de acolhimento e maternagem aos mais pobres, aos excluídos.

Lembrei-me igualmente da homilia do Padre Márcio Felipe de Souza Alves, diretor espiritual da entidade, no último domingo. Colocou sobre as multidões cansadas e abatidas, que Jesus viu e teve compaixão. E tantas vezes cansadas em seus sentimentos, na falta de esperança. Jesus não as interroga e nem passa indiferente. Ele morreu por todos nós.

Chama-nos à missão de buscar a santidade e sermos Seus operários junto a essas multidões e, com a Sua graça, expulsarmos o mal, curarmos os doentes da alma, anunciarmos nova vida aos corações mortos.

Maria Cristina Castilho de Andrade é professora e cronista

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