A morte precoce de Luiz Antonio Latorre motiva um turbilhão de reminiscências em minha provecta mente. Lembro-me da alegria de seu pai, o industrial Luiz Latorre, um benemérito implementador da responsabilidade social da empresa, muito antes de surgir a estratégia ESG. Meu pai trabalhou nas Indústrias Andrade Latorre S/A e eu também, quando ainda muito jovem.
Ali se desenvolvia uma política inteligente de fidelizar os operários. Grande parte deles residia em imóveis de propriedade da empresa. Esta promovia Páscoas, celebrações cívicas, comemorações várias, com a presença dos proprietários e um convívio verdadeiramente cordial. Luiz Latorre sabia o nome de cada colaborador que oferecia a sua força braçal e qualquer espécie de conhecimento para o êxito de sua indústria.
Fomentou o Teatro Amador, algo que acabou e que era uma estratégia de intensificação do pertencimento. O Grupo de Teatro Guarany envolveu uma porção de servidores que aprenderam literatura, a falar melhor o vernáculo, a se entreter graças à sua empregadora. Fui mascote desse Grupo Dramático, depois chamado Guarany de Comédias.
Pois Luiz Latorre caminhava de sua residência, na Avenida Dr. Torres Neves, até a sede da fábrica de fósforos, passando por vários quarteirões da rua 15 de novembro. Parava para conversar com minha mãe, singeleza que também desapareceu do horizonte dos CEOs contemporâneos.
Quando do nascimento de Luiz Antonio, ele exprimiu sua alegria. “Chegou o meu filho varão, D. Benedicta! Sou grato a Deus por essa dádiva!”. Ele já possuía duas filhas, Lucilene e Marialice, mas como bom “oriundi”, ansiava por “fili maschi”.
Luiz Latorre foi prefeito de Jundiaí, ao tempo em que prefeitos eram profissionais bem-sucedidos, que ofereciam sua experiência e patriotismo em favor da cidade, como Vasco Venchiarutti e Dr. Antenor Soares Gandra. A política partidária não era profissão. Era exercício cívico espontâneo e gratuito.
Luiz Antonio fez o conglomerado empresarial florescer e frutificar. Conservou sua bonomia, sua simpatia, seu cavalheirismo, algo que estava no DNA de seu pai, o batalhador Luiz Latorre.
O filho também construiu uma linda família. Congregou todos perto de si e da Bete Loboda, com quem se casou. Um exemplo de jundiaiense que se radica na cidade e procura contribuir para o seu real desenvolvimento.
Morrer agora, quando poderia permanecer conosco por uma década ou mais, o que a medicina e a indústria farmacêutica parecem garantir, faz com que mais uma vez reflitamos a respeito de quão efêmera é esta nossa peregrinação. Quando pensamos ainda ter muito caminho a trilhar, eis que surge a ceifadeira, a mais democrática dentre as companhias a que somos condenados a prever, chega e nos leva.
Uma das vezes em que cheguei a conversar com Luiz Antônio, sugeri a ele que cuidasse de editar uma biografia de seu pai, Luiz Latorre, para servir de exemplo às novas gerações e para mostrar que já tivemos uma higidez política eticamente bem superior à do presente. Ele aceitou de pronto.
Agora é o momento de seus herdeiros cumprirem o trato. E fazerem uma dupla biografia: a do seu avô e a de seu pai. Ambas figuras que fazem acreditar que o projeto humano, longe de ser fracasso, é um patrimônio importante de padrões inspiradores, lições que não podem ser esquecidas, se quisermos tornar cada vez mais digna esta instigante aventura existencial que nos foi dado experimentar.
José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo