Em 1962, a bióloga e ecologista Rachel Louise Carson lançou o livro “Silent Spring”, ou “Primavera Silenciosa”, por isso é considerada a mãe do ambientalismo. Ela alertava a sociedade americana de que o uso excessivo de herbicidas estava matando abelhas e borboletas. Já raciocinava à luz de uma concepção que se tornou vitoriosa e hoje é incontestável. A cadeia existencial – toda espécie de vida – forma uma corrente que não pode ter nenhum dos elos rompido. Se isso acontecer, compromete-se todo o sistema vital. Os outros elos também se rompem e isso é o prenúncio da catástrofe.
É o que está acontecendo no mundo, que continua – de forma inclemente e insensata – a desmatar e a se servir de combustíveis fósseis, mesmo sabendo que eles envenenam a atmosfera e causam a morte prematura de milhões de seres. Os humanos, principalmente.
A ruptura do equilíbrio natural de um universo tão bem orquestrado, oferece um quadro tétrico ao bicho-homem. As duas principais causas do aquecimento global – desmatamento e uso de fósseis – provocam profunda mutação climática.
Embora exista uma enfermidade chamada negacionismo, é impossível não constatar que a cada ano a temperatura aumenta. Todos os últimos anos têm tido recordes de calor. Ele ocasiona a escassez hídrica. O calor mata mais do que as ondas de frio e as outras causas de desastres vinculados à mutação do clima: afogamentos em enchentes, soterramentos pelos deslizamentos e desmoronamentos.
Por óbvio, não constará do assento de óbito como “causa mortis” o calor. Mas ele foi o gatilho deflagrador de AVCs, enfartes, síncopes cardíacas e outras ocorrências fatais.
Outra consequência nefasta é a crise hídrica. O mundo inteiro registra falta de água potável. Muitos países já estão dessalinizando a água do mar. Processo complexo e dispendioso. O ser humano tem se mostrado um eficiente fabricante de desertos.
Alguns espíritos empedernidos costumam atribuir à ecologia, que é verde, uma tonalidade rubra. Acusam os amigos da natureza de serem ideologicamente de esquerda. Só que essa causa não tem ideologia, nem conotação política. É uma questão humanitária.
Cumpre registrar que a expressão “desastres naturais” é inadequada. Não são naturais as respostas que a natureza oferece à insanidade dos seres humanos. Todos os fenômenos extremos são consequência de nossa omissão ou até de predeterminada disposição dolosa de sacrificar o patrimônio ambiental que recebemos gratuitamente, mas que exterminamos sem pudor ou remorso.
Por isso é que a mais grave ameaça a recair sobre a humanidade teimosa e ignorante não é a guerra da Ucrânia, nem a faixa de Gaza, nem os outros conflitos que se espalham pela Terra. É aquilo que chamávamos de “mudança climática”, passamos a denominar “emergência climática” e hoje pode já é conhecida como “cataclismo climático”.
Isso porque os cientistas alertaram o mundo durante décadas, e ninguém ouviu. Agora, é a natureza que está com a palavra. E ela está bem ressentida com seus detratores.
As vítimas preferenciais da desordem climática são os mais vulneráveis. E os mais frágeis destes, são crianças, mulheres e idosos. Daí a urgência de que toda cidade tenha um órgão destinado a tratar a mudança climática de forma séria. Não é por ambientalismo raiz. É para salvar vidas humanas. Não é a Terra que corre perigo. Ela continuará a existir. Mas se continuarmos surdos e cegos à realidade atual, ela prescindirá da espécie humana para continuar sua rota no Cosmos infinito em que situada.
José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo.