OPINIÃO

Avançamos, mas ainda não chegamos


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O Brasil entrou, pela primeira vez, na faixa de desenvolvimento humano considerada “muito alta” pelo PNUD, ao atingir o IDH de 0,805 em 2024. É uma notícia importante, especialmente para um país que atravessou pandemia, crise econômica, perda de renda, insegurança alimentar e sucessivas instabilidades políticas. O avanço merece ser reconhecido, porque desenvolvimento humano não é apenas crescimento econômico: é vida mais longa, mais acesso à educação e melhores condições de renda. Mas seria um erro transformar esse resultado em celebração ufanista, como se um número nacional fosse capaz de apagar as desigualdades profundas que continuam organizando a vida brasileira.

O próprio IDH, por definição, é uma média. E médias, no Brasil, costumam esconder abismos. Quando se olha para dentro do país, o retrato muda. O Distrito Federal aparece com IDH de 0,866, enquanto o Maranhão registra 0,745. Pessoas brancas alcançam 0,851, já na faixa de desenvolvimento muito alto, enquanto pessoas negras ficam em 0,774. Homens aparecem com 0,802, e mulheres, com 0,798. Ou seja, o Brasil melhora, mas não melhora por igual.

Também é preciso lembrar que, no ranking internacional mais recente do Relatório de Desenvolvimento Humano, o Brasil estava apenas na 84ª posição entre 193 países, com IDH de 0,786 nos dados de 2023. Quando o índice é ajustado pela desigualdade, o desempenho brasileiro cai de forma relevante, justamente porque renda, educação e longevidade não chegam com a mesma força a todos os grupos sociais e territórios.

Esse é o ponto central: o Brasil entrou em uma faixa estatística melhor, mas ainda convive com uma realidade social muito desigual. Há um país que envelhece com mais saúde, estuda por mais tempo e acessa renda mais alta; e há outro que ainda enfrenta escola precária, saneamento incompleto, violência cotidiana, transporte ruim, moradia vulnerável e atendimento público insuficiente. Ambos cabem no mesmo número nacional, mas não vivem o mesmo desenvolvimento.

Por isso, a boa notícia precisa ser lida como ponto de partida, não como linha de chegada. Se o Brasil quer sustentar esse novo patamar, terá de enfrentar o que sempre adiou: desigualdade regional, desigualdade racial, desigualdade de gênero e desigualdade de renda. Desenvolvimento humano muito alto não pode ser apenas uma classificação internacional; precisa ser uma experiência concreta na vida das pessoas.

O desafio agora é transformar avanço médio em avanço distribuído. Isso exige investimento consistente em educação básica, saúde preventiva, primeira infância, saneamento, segurança alimentar, qualificação profissional, moradia digna e geração de renda. Exige também olhar para Norte e Nordeste, não como problemas periféricos, mas como territórios centrais para qualquer projeto sério de país.

O Brasil melhorou, e isso importa. Mas melhorar não basta quando a distância entre os brasileiros continua tão grande. O IDH de 0,805 mostra que há progresso possível. As desigualdades revelam que ainda há um imenso trabalho a fazer.

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ

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