COPA DO MUNDO

Jornalista compartilha os bastidores da Copa dos EUA em 94

Por Vitor Silva |
| Tempo de leitura: 3 min
O trabalho dos jornalistas exigia um esforço muito maior que nos dias de hoje
O trabalho dos jornalistas exigia um esforço muito maior que nos dias de hoje

A Copa do Mundo de 2026 marcará o retorno do principal torneio do futebol aos Estados Unidos, país que recebeu a competição pela última vez em 1994. Naquele ano, o Brasil conquistou o tetracampeonato mundial e dois jornalistas de Jundiaí tiveram a oportunidade de acompanhar tudo de perto: Anelso Paixão e Sidney Mazzoni, falecido em 2012.

Na época, Anelso integrava a equipe do Correio Popular, de Campinas, um dos poucos jornais do interior do Brasil presentes no Mundial. Ao lado do Jornal de Santos, o veículo representou a imprensa regional em uma cobertura dominada pelos grandes jornais e emissoras nacionais.

Mais de três décadas depois, Anelso ainda guarda lembranças vivas daquela experiência. Atualmente apresentador do programa Mais Esporte, da TV Mais, ele recorda que o cenário encontrado nos Estados Unidos era bem diferente do que muitos imaginavam para uma Copa do Mundo.

“O pessoal nos Estados Unidos não estava ligando muito para a Copa porque o futebol não era um esporte tão popular por lá. Mas fiquei surpreso quando entrei no estádio da primeira partida e vi tudo lotado. Aquilo me chamou muita atenção”, relembra.

Segundo ele, os estádios cheios foram uma das grandes marcas daquela edição. O jornalista conta que a competição despertou um sentimento de orgulho nacional nos americanos, mesmo em um período em que o futebol ainda não possuía a força que tem atualmente no país.

Dentro de campo, a Seleção Brasileira tinha em Romário e Bebeto seus principais protagonistas. No entanto, para Anelso, dois jogadores tiveram papel fundamental na conquista do título e merecem destaque especial.

“Acho que Dunga e Mauro Silva formavam uma dupla perfeita. Eles davam equilíbrio para a equipe e foram fundamentais durante toda a campanha”, afirma.

Se o futebol dentro das quatro linhas impressionava, o trabalho dos jornalistas exigia um esforço muito maior do que nos dias atuais. Sem internet de alta velocidade, smartphones ou redes sociais, enviar informações para o Brasil era uma tarefa complexa e demorada.

“As coberturas eram muito difíceis por causa do fuso horário e da falta de tecnologia. As matérias demoravam para chegar ao Brasil e as fotos mais ainda. Hoje é tudo muito mais simples e rápido”, conta.

Uma das histórias mais curiosas vividas por Anelso aconteceu durante uma coletiva de imprensa com Romário, em San Jose. Em meio à aglomeração de jornalistas, seu notebook — um equipamento ainda raro na época — acabou sendo danificado.

“Alguém deve ter apertado ou esbarrado no computador e a parte cristalina vazou. Eu precisava dele para trabalhar e procurei assistência técnica”, lembra.

Mesmo sem falar inglês fluentemente, o jornalista recebeu ajuda de uma empresa local. Um funcionário que falava espanhol interrompeu suas atividades para consertar o equipamento e ainda ajudou a restaurar programas que haviam sido perdidos.

O técnico se recusou a cobrar pelo serviço. Em troca, fez apenas um pedido: uma camisa autografada por Romário. Sem querer abordar diretamente o atacante brasileiro, Anelso encontrou uma solução inusitada.

“Eu dei 20 dólares para um garoto brasileiro que estava lá e pedi para ele conseguir a assinatura. Depois levei a camisa para o técnico. Foi uma situação engraçada e que nunca esqueci”, recorda.

Ao analisar as mudanças no jornalismo esportivo ao longo dos últimos 32 anos, Anelso destaca que a tecnologia transformou completamente a forma de produzir conteúdo. Para ele, a velocidade da informação trouxe avanços importantes, mas também mudou o foco de parte da cobertura.

“Naquela época a imprensa era muito mais estabelecida. Hoje existe uma mistura muito grande. Muitas pautas passaram a focar mais na vida pessoal dos atletas, enquanto o futebol em si perdeu um pouco de espaço”, avalia.

Outra mudança apontada por ele está na própria dinâmica do esporte. Segundo Anelso, a globalização do futebol fez com que os principais talentos deixassem o Brasil cada vez mais cedo, dificultando a identificação dos torcedores com os jogadores.

Com a Copa retornando aos Estados Unidos em 2026, as lembranças de 1994 ganham novo signifi cado. Para Anelso Paixão, que acompanhou de perto aquele título mundial da Seleção Brasileira, a competição segue sendo um marco inesquecível na carreira e uma das experiências mais importantes de sua trajetória no jornalismo esportivo.

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