“A Serra do Japi pode ser compreendida como território vivo, patrimônio natural e espaço estratégico para a conservação da biodiversidade, da água e da identidade regional. Proteger a Serra do Japi é também aprender a governar o território com inteligência ecológica. É reconhecer que a biodiversidade não está separada da cidade, da água, da paisagem, da cultura e da vida cotidiana. Ela é parte essencial do futuro municipal e deve orientar uma nova forma de planejar, decidir e cuidar do ambiente.” Afonso Peche Filho, pesquisador científico do Instituto Agronômico de Campinas.
Territórios, Biodiversidade e Serra do Japi. Esse foi o tema que o especialista em gestão agroambiental, Afonso Peche Filho, proferiu na semana passada, no CREAM – Centro de Referência de Educação Ambiental –, no Ciclo Formativo para Conselheiros – COMDEMA -, e Conselho da Serra do Japi.
A visão do pesquisador científico para compreender os desafios ambientais contemporâneos passa pela definição operacional de território. Ela é entendida como um espaço organizado pela interação dinâmica entre natureza, sociedade e poder, o que amplia a discussão ambiental para além da simples preservação de recursos naturais. Nessa abordagem, o território, como um espaço geográfico, passa a ser um sistema vivo de relações.
É a primazia da vida, que toda organização social, econômica e política deveria ter como finalidade última, para a manutenção e o florescimento da vida em suas múltiplas formas. Quando o território é analisado apenas sob a ótica da exploração econômica, ocorre um desequilíbrio na relação entre seus três elementos constituintes. A natureza é reduzida a recurso, a sociedade torna-se consumidora e o poder concentra-se na lógica da apropriação. O resultado costuma ser a degradação ambiental, a perda da biodiversidade e o enfraquecimento das comunidades humanas.
Afonso Peche Filho fala sobre a tendência inata do ser humano de buscar conexão com a natureza e outras formas de vida. Biofilia. Trata-se de uma necessidade, profundamente ligada ao equilíbrio emocional, cognitivo e até físico das pessoas. O cidadão urbano que não conhece a origem da água que consome, dos alimentos que compra ou da energia que utiliza tende a enxergar o meio ambiente como algo externo à sua existência.
Portanto, a sustentabilidade não depende apenas de tecnologias verdes ou de regulamentações ambientais. Ela exige uma reconstrução cultural da relação entre sociedade e território. A educação ambiental, o planejamento urbano, a agricultura sustentável e a gestão dos recursos naturais tornam-se instrumentos para fortalecer os vínculos biofílicos da população, afirma o cientista. Preservar a natureza não significa apenas salvar florestas, rios ou espécies. Significa preservar as condições que tornam possível a própria vida humana e garantir que os territórios continuem sendo espaços de convivência harmoniosa entre pessoas, ecossistemas e gerações futuras, conclui o pesquisador.
Rosângela Portela é jornalista, consultora e mentora em comunicação