OPINIÃO

Detox de julgamento


| Tempo de leitura: 3 min

Existe um cansaço silencioso que as mulheres carregam sem perceber. Não é apenas
 o excesso de tarefas, de cobranças, de responsabilidades. É o peso de ser observada, analisada e julgada o tempo todo. A sensação de que existe sempre alguém pronto para apontar aquilo que está “demais” ou “de menos”.

A régua do mundo muda o tempo inteiro. E talvez seja justamente por isso que a busca pela perfeição canse tanto: porque nunca existiu uma linha de chegada real.

Se a mulher emagrece demais, criticam. Se ganha peso, criticam também. Se não se cuida, dizem que se abandonou. Se faz procedimentos estéticos, dizem que exagerou. Se está muito focada na carreira, perguntam quando vai desacelerar ou ter filhos. Se escolher a maternidade como prioridade, dizem que está desperdiçando potencial profissional. Se envelhece naturalmente, “não se cuidou”. Se parece jovem demais, “não sabe aceitar a idade”.

Nunca parece suficiente. Existe julgamento para a roupa, corpo, maquiagem, jeito de falar, para a sensualidade, para a discrição. E assim seguimos criando uma cultura onde as pessoas se sentem autorizadas a opinar sobre a vida alheia como se isso fosse normal.

A famosa frase do filósofo Jean Paul Sartre dizia: “o inferno são os outros”. E talvez ela faça ainda mais sentido nos dias atuais, em uma sociedade que observa mais do que acolhe, aponta mais do que compreende e julga mais do que escuta.

Recentemente, durante um jantar em um congresso, uma conversa me fez refletir sobre isso. Estávamos entre mulheres incríveis, palestrantes de diferentes partes do Brasil e do mundo, cada uma trazendo sua cultura, sua história, sua essência. Em determinado momento, uma delas comentou que se sentia bem sendo exatamente quem era: uma mulher sensual, autêntica, livre em sua forma de se vestir e de existir. E contou que, muitas vezes, isso chocava pessoas de culturas diferentes e era necessário uma adaptação em alguns locais.

Mas aquela era a essência dela. E então veio a reflexão: por que é tão difícil permitir que as pessoas sejam quem realmente são? Por que o mundo insiste tanto em encaixar mulheres em pequenos quadrados de comportamento ideal? Como se existisse uma fórmula perfeita de feminilidade.

Talvez a verdadeira liberdade comece justamente quando entendemos que não existe
 aprovação suficiente para quem está sempre procurando defeitos.

Enquanto estivermos vivendo apenas para atender expectativas externas, estaremos sempre correndo atrás de uma validação que nunca chega. Porque o problema raramente está na mulher. Está no olhar condicionado de quem julga.

E talvez seja hora de fazermos um detox desse hábito tão automático de apontar, comparar e condenar.

Talvez possamos olhar para as mulheres que aparecem na nossa frente ou na rede social, com mais empatia. Tentar enxergar além da roupa, da idade, do corpo, das escolhas pessoais e apreciar a coragem que existe em alguém que tenta apenas ser verdadeiro consigo mesmo.

Nem toda mulher quer a mesma vida ou sonha com as mesmas coisas. E isso deveria
ser motivo de riqueza humana, não de julgamento.

Precisamos reaprender a acolher as diferenças, admirar outras formas de viver e entender que autenticidade não deveria assustar ninguém.

No fim das contas, talvez a mulher mais forte não seja aquela que conseguiu e agradar a todos. Mas aquela que, mesmo ouvindo tantas opiniões, ainda conseguiu permanecer fiel à própria essência. Muita saúde a todos.

Liciana Rossi é especialista em coluna e treinamento corretivo, pioneira do método ELDOA no Brasil

Comentários

Comentários