OPINIÃO

Favo de Mel


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Deus é de uma doçura além da razão humana.

Semana passada, momentos que antecederam as homenagens merecidas pelo “Dia das Mães”. Belo demais. Além da figura humana, sentimentos feitos de entrega aos filhos. O Criador nos cumulou de bens com a mamis Irene, que foi de renúncia, firmeza, ternura, virtudes determinadas e, ao não mais nos alcançar em seu colo, colocou-nos, em suas preces, no colo do Céu. E creio que as preces permanecem junto ao Senhor.

Em mim, nessa época, apesar da gratidão, existe uma certa melancolia de ausência. Não constituí família por escolha, priorizando outras maneiras de cuidar. Não fui freira pelo mesmo motivo. Unem-se, portanto, ausência física de mãe e o não ser mãe. Maternagem é diferente de maternidade.  Minha certeza, no entanto, se voltasse ao passado, de que as escolhas seriam as mesmas. Nas festividades, persiste uma mistura de emoções em que faltam abraços apesar dos laços perdurarem. Manuel Bandeira (1886-1968) escreveu em “Cinza das Horas”: “E a vida vai tecendo laços, / Quase impossíveis de romper:/ Tudo que amamos, são pedaços/ Vivos do nosso próprio ser”.

No domingo do “Dia das Mães”, persistia em mim a fala do Padre Márcio Felipe de Souza Alves, Reitor e Pároco no Santuário Diocesano de Santa Rita de Cássia, na Missa vespertina do dia anterior, a respeito do que disse Jesus (João14,18): “Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós”. Vem aos que não escolhem o mundo e O permitem curar a paralisia do coração. É o que Ele faz comigo, todas as vezes que meu coração endurece. Sou testemunha de que a Palavra de Deus realmente acontece.

Tinha e tenho ainda comigo as palavras do Padre Márcio Felipe sobre permanecermos no caminho, que leva ao Céu, porque Jesus segue conosco. Buscava nessas colocações assoprar a nostalgia; a colocar a convivência materna de décadas e a convicção de minhas escolhas, que foram sinalização de Deus, acima da melancolia de quem, em alguns momentos, é peregrina nos desertos da vida.

Antes de sair para o cemitério, li um texto forte e lindo, escrito por minha cunhada, a jornalista Regina Bernardi, a respeito da data, que foi o primeiro sopro de Deus no meu dia. Emocionei-me! O texto dá sentido também à maternidade da maternagem que é “amar, cuidar, não esperar nada em troca, ensinar, nunca desistir”.

No cemitério enfeitei o túmulo com margaridas, que simbolizam amor, bondade e a simplicidade da alma. É uma flor de beleza elegante e singela. Sua resistência e capacidade de crescer em campos abertos fazem dela um símbolo de força. Mamis possuía essas características.

No túmulo, permanece um pequeno anjo, posto por uma moça sofrida, que veio da exploração perversa de carnes na Europa, após ser levada, mocinha, envolta em esperança de dias com encantos. Não é uma imagem apropriada ao relento. Está lá, há mais ou menos dois anos, solta, sem que a chuva ou o vento a leve ou destrua. Pensei no amor bonito do coração dela ao colocar ali a imagem, sem que tivesse conhecido nossos pais.

Na volta, por acaso a encontro na calçada próxima à casa dela. Parei para lhe falar do anjo. Nas mãos, ela possuía um favo de mel, que comprara para me oferecer pelo “Dia das Mães”, dizendo que aqui sou a sua mãe.  Como Deus é da doçura que mima e acalenta.

Maria Cristina Castilho de Andrade , professora e cronista

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