OPINIÃO

Dois sonetos de Bilac


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Obra póstuma de Olavo Bilac, “Tarde” saiu publicado em 1919, um ano depois da morte do poeta e cronista carioca. O volume reúne os temas mais usuais do artista, como a natureza e a mitologia brasileiras, o amor, a própria poesia. E a finitude da vida. A respeito dessa temática, destaco o soneto que abre o livro, “Hino à tarde” e o último, “Sinfonia”. Versos melancólicos, de um lirismo contido mas não menos envolvente, tão frequente na obra desse poeta.

A primeira estrofe do “Hino…” pode espantar o leitor incauto (“Glória jovem do sol no berço de ouro em chamas,/Alva! natal da luz, primavera do dia,/ Não te amo! nem a ti, canícula bravia, Que a ti mesmo te estruis no fogo que derramas!”). Mas antes de atirar longe o livro, naquela fúria de quem pergunta “que raio de língua é essa?”, peço dose de persistência a quem não conhece o bardo. O rapaz usa “canícula” [“calor intenso”],  “estruir” [“desmoronar”], joga o sujeito lá adiante, embaralha a ordem mais comum da frase, pra dizer que não curte o sol forte do começo da tarde. Na sequência, anota: “Amo-te, hora hesitante em que se preludia/ O adágio vesperal, tumba que te recamas / De luto e de esplendor, de cremes e auriflamas,/ Moribunda que ris sobre a própria agonia”. O que ele gosta na tarde é a ideia do fim.

Nos tercetos, escreve: “Amo-te, ó tarde triste, ó tarde augusta, que, entre/ Os primeiros clarões das estrelas, no ventre,/ Sob os véus do mistério e da sombra orvalhada/ Trazes a palpitar, como um fruto do outono,/ A noite, alma nutriz da volúpia e do sono, /Perpetuação da vida e iniciação do nada.” O grande presente que a tarde traz é a noite, da qual nasce o desejo, mas também aquela que anuncia o final da jornada.

Em “Sinfonia”, o poeta se vale do universo musical para tratar do mesmo fim. Fala da juventude, passa pela madureza e encara a proximidade do final: “Meu coração, na incerta adolescência outrora,/ Delirava e sorria aos raios matutinos,/ Num prelúdio incolor, como o alegro da aurora,/ Em sistros e clarins, em pífanos e sinos/ Meu coração, depois, pela estrada sonora/Colhia a cada passo os amores e os hinos,/E ia, de beijo a beijo, em lasciva demora/ Num voluptuoso adágio em harpas e violinos./ Hoje, meu coração, num scherzo de ânsias arde/Em flautas e oboés, na inquietação da tarde,/ E entre esperanças foge e entre saudades erra./ E heroico, estalará num final, nos clamores/ Dos arcos, dos metais, das cordas, dos tambores/ Para glorificar tudo que amou na terra!”.

Pode-se não gostar do estilo grandiloquente de Bilac, da sua procura pelo requinte de uma tradição clássica, mas fica difícil não reconhecer a maestria e o domínio completo de seu ofício.       

Fernando Bandini é professor de literatura 

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