Na minha idade, no auge dos 37 anos, já é um privilégio e tanto ter uma mãe por perto que sempre está pronta para por mais um prato na mesa em uma quarta-feira qualquer ou que ainda te ajuda a resolver manchas inconvenientes na sua roupa branca favorita. Agora, imagina ter duas mães? Pois é. Eu tenho.
Quando Josy estava com o barrigão de nove meses, Sandra tirou 15 dias de férias de seu trabalho na capital para acompanhar o parto do bebê que viria a ser eu. "Quando a Josy ficou grávida, a Sandra ficou grávida junto" é a frase mais certeira sobre essa dupla. Josy é a esposa de Anselmo que, por sua vez, é irmão da Sandra que, por motivos para lá de óbvios, se tornou minha madrinha.
Eu não sei como é um mundo sem duas mães. Nasci e elas já estavam lá, se revezando no amor e carinho desde os primeiros choros e até as grandes conquistas. A Josy fez o papel da mãe que educa e que corrige. Já a Sandra fez de tudo para mimar o seu filho que não saiu de dentro dela. Mas ambas me ensinaram e demonstraram o amor que se tornou base para eu ser quem eu sou hoje.
A mãe Josy me apresentou o mundo da leitura e do conhecimento. Ela me ensinou a ler rápido. Eu não tinha cinco anos e já sabia ler e escrever com certa facilidade. Josy adorava me fazer decorar coisas como o nome dos presidentes do Brasil e dos EUA, do governador de São Paulo e do prefeito de sua capital e do chefe do executivo de nossa cidade do interior. Eu não tinha nem três anos quando ela desafiava adultos que iam me visitar a fazer perguntas que só um prodígio responderia.
Mais crescido, eu era incentivado a ler tudo o que tinha dentro de casa. E eu adorava folhear revistas e descobrir palavras novas que tinham seus significados explicados pela Josy que nunca barrou minha verve curiosa. Ela foi a primeira vítima da minha maiêutica irretocável. Ouviu muitos "por quês?" saíndo da minha boca e foi paciente para tentar responder a cada um deles.
Ela não gostava que eu ficasse muito na frente da TV, mas deixava de ver sua novela das seis para que eu pudesse assistir TV Cultura e meu programa favorito: "O Mundo de Beakman". Era ali que eu achava as respostas de coisas que ela não tinha. E se antes ela era alvo dos meus "por quês?", agora se tornava minha plateia favorita dos meus "porquês". Eu amava explicar as coisas que eu aprendia para ela.
Fui um aluno exemplar. Ela foi professora por parte de sua vida e a exigência por excelência na escola era sua maior marca. Todos os dias ela olhava meus cadernos e me acompanhava em cada lição. Capricho e dedicação eram leis para a Josy. E, mesmo no ensino médio - no qual ela não olhava mais meus cadernos -, ela não faltava em nenhuma das reuniões de pais e adorava a sensação de sair da escola só com elogios sobre mim.
A mãe Sandra me deu a sensibilidade e a veia artística que me fizeram amar ser exibido. Nunca economizou uma célula para incentivar minha veia artística sejá lá o que eu me metesse a fazer. Quando bebê, eu só dormia ao som de "Hey Jude", dos Beatles. Sabendo disso, gravou uma fita cassete com a música em looping para colocar no rádio e eu dormir profundamente.
Outra fita que ela gravou para mim foi com músicas do Latino. Eu era um fã mirim do cantor e adorava dublar as músicas para a plateia formada por ela e minha prima. Sua sala sempre estava pronta para receber algum show meu.
Quando eu disse que queria fazer teatro, ela me buscou na escola e me levou para fazer a inscrição. Não perdeu uma única peça que eu fiz e estava sempre ali, aplaudindo e se emocionando. Até quando eu comecei a dançar Axé na adolescência, ela me incentivava a dançar em qualquer festa ou churrasco que estávamos colocando músicas propícias no rádio.
Foi dela que ganhei meu primeiro violão e por isso inventei de escrever músicas e de ter uma banda. Nunca vou esquecer da mensagem que ela me mandou dizendo que estava chorando emocionada no dia que contei que havia ganho o prêmio de melhor vocalista em um festival de música. Na ocasião, foi nesse festival que subi no palco pela primeira vez para cantar. No final da mensagem, um lembrete: "sempre fã".
Me tornei um artista que gosta de estudar e um estudioso que gosta de fazer arte. O que é, para mim, uma ótima receita para eu ser o que eu sou hoje: um professor! E sem nenhuma modéstia, um bom professor.
Obrigado, mães. Amo vocês. Conhecimento é conquista.
Felipe Schadt é jornalista, professor e cientista da comunicação