OPINIÃO

Relaxar a mente cansando o corpo!


| Tempo de leitura: 3 min

Vivemos uma época em que a mente raramente descansa. Somos bombardeados por
notificações, excesso de informação, cobranças, telas e estímulos praticamente o tempo todo. Curiosamente, enquanto buscamos cada vez mais formas de “desligar o cérebro”, os índices de ansiedade, insônia, estresse emocional e fadiga mental continuam crescendo.

Talvez porque exista uma verdade fisiológica que muitas vezes esquecemos: o cérebro humano foi feito para o movimento. Existe uma frase que faz cada vez mais sentido dentro da ciência: uma das formas mais eficientes de relaxar a mente é movimentando o corpo.

E isso vai muito além da sensação subjetiva de “bem-estar”. Existe uma resposta  neuroquímica real acontecendo. Muitas pessoas percebem isso na prática. Terminam um treino, qualquer atividade física e sentem que a mente desacelera. Os pensamentos ficam menos caóticos, a respiração muda, o corpo relaxa e surge uma sensação indescritível de bem estar, uma clareza mental difícil de explicar. Mas a ciência explica!

Durante o exercício físico, o organismo libera substâncias capazes de modular diretamente o funcionamento cerebral. Entre elas estão os endocanabinoides, compostos produzidos naturalmente pelo próprio corpo, associados à sensação de tranquilidade, relaxamento e melhora emocional após o esforço físico. Diferente do que se acreditava há alguns anos, essa sensação não depende apenas da endorfina. Hoje sabemos que os endocanabinoides exercem papel fundamental nesse estado de calma que muitas pessoas experimentam após se movimentar.

Ao mesmo tempo, ocorre aumento do BDNF, uma proteína extremamente importante para a saúde cerebral, que  participa da proteção dos neurônios, favorece novas conexões cerebrais e estimula regiões relacionadas à memória, aprendizado e regulação emocional. Portanto, o movimento não apenas fortalece os músculos, ele também ajuda o cérebro
 a funcionar melhor.

Além disso, pessoas fisicamente ativas tendem a desenvolver uma resposta mais equilibrada ao estresse. O organismo aprende a reagir de forma menos exagerada diante das pressões do dia a dia. Situações que antes geravam irritação intensa, ansiedade ou sensação de sobrecarga passam a ser enfrentadas com mais estabilidade emocional.

O exercício também influencia diretamente a qualidade do sono, outro fator essencial para a saúde mental. Um corpo que se movimenta adequadamente tende a dormir melhor, recuperar melhor o cérebro e equilibrar de forma mais eficiente hormônios relacionados ao estresse e ao humor.

Talvez um dos maiores problemas da vida moderna seja justamente este: estamos mentalmente sobrecarregados e fisicamente subutilizados. O cérebro recebe estímulo demais e o corpo recebe movimento “de menos”. E isso cria um organismo constantemente em alerta, concorda?

Mas existe um ponto importante: movimentar o corpo não significa levar o organismo à exaustão. Treinos excessivos, falta de recuperação e exercícios inadequados também podem piorar sono, humor, cognição e inflamação. A dose importa. A intensidade importa. O tipo de exercício importa. O que faz bem para uma pessoa pode não ser o ideal para outra. Procure um profissional de educação física! Utilize o movimento como a sua medicina!

Cada vez mais a ciência do exercício entende a atividade física como uma ferramenta terapêutica individualizada. Quando o estímulo é adequado para a realidade física, emocional e fisiológica daquela pessoa, os benefícios aparecem de maneira muito mais consistentes. Mover-se é uma necessidade biológica. E talvez uma das formas mais inteligentes de cuidar da mente seja justamente voltar a usar o corpo da maneira para a qual ele foi criado. Muita saúde a todos.

Liciana Rossi é especialista em coluna e treinamento corretivo, pioneira do método ELDOA no Brasil

Comentários

Comentários