Na era do home office, grupos de trabalho no Whatsapp e fluxo constante de informação, rotinas marcadas por excesso de demandas e a sensação de nunca fazer o suficiente se tornam cada vez mais comuns. A chamada produtividade tóxica tornou-se uma das faces mais preocupantes do mercado de trabalho atual. Impulsionada pela busca incessante por desempenho, ela muitas vezes vem acompanhada da dificuldade de impor limites e de se desconectar das obrigações profissionais — o que tem impactado diretamente a saúde física e emocional dos trabalhadores.
Dados do Ministério da Previdência Social mostram que os afastamentos do trabalho por transtornos mentais atingiram, em 2025, o maior patamar da série recente – superando até mesmo o recorde de 2024. Ao todo, foram 546.254 afastamentos por questões de saúde mental, o que representa um aumento de 15% em relação ao ano anterior.
A lista é liderada por depressão, com 166.489 casos, e ansiedade, com 126.608. Logo abaixo, porém, em sétimo lugar, aparece “reações ao estresse grave”, totalizando 18.686 afastamentos. Um sinônimo para essa categoria poderia ser o burnout, síndrome definida como um estado de esgotamento físico e emocional diretamente relacionado ao trabalho, decorrente de estresse crônico não gerenciado.
Segundo análise da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), a partir de dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), o burnout apresentou o crescimento percentual mais expressivo do período. Os registros triplicaram, passando de 1.760, em 2023, para 6.985, em 2025, um sintoma direto dos efeitos da produtividade tóxica na sociedade.
De acordo com a médica Jordana Lopes (27), o conceito de produtividade tóxica determina que o valor da pessoa é medido pelo quanto ela produz. “A pressão sempre existiu, mas hoje é contínua. Com o digital, estamos acessíveis o tempo todo, então produtividade deixou de ser necessidade e virou identidade. As pessoas precisam provar o tempo todo que estão produzindo.”

Jordana Lopes explica como a pressão por desempenho afeta trabalhadores
Uma das vítimas dessa mentalidade de trabalho é Luca Ferrari, artista visual, ilustrador e designer de 23 anos. Mesmo tão novo, Luca já vivenciou a pressão do mercado de trabalho e teve diversos períodos de adoecimento por produtividade excessiva.
Nessa época, Luca conta que fazia faculdade pela manhã, trabalhava à tarde e realizava trabalhos freelancers à noite, o que resultou em esgotamento e até episódios em que ficou de cama devido à febre. “A rotina excessiva virou algo tão comum que o ócio era algo estranho para mim. Sempre que tinha um momento para descansar, sentia-me improdutivo. Minha mente ficava agitada o tempo todo, dormia mal e, além disso, minha vida fora do trabalho também foi muito afetada. Acabei afastando amigos e família e prejudicando meus estudos e minha criatividade.”

Luca Ferrari reflete sobre a busca por equilíbrio entre carreira e vida pessoal
O artista explica que sentia que precisava se provar dentro da empresa e, com o tempo, trabalhar além de seu horário passou a ser o esperado pelos chefes. “Sentia que era minha responsabilidade cumprir com aqueles prazos absurdos, mas também acreditava que assim seria levado mais a sério. Depois de um tempo, quando fazia o meu horário normal, sentia alguns olhares tortos, como se estivesse fazendo menos do que deveria.”
O cenário, porém, parece estar melhorando. A doutora Jordana destaca como as gerações lidam com o assunto de maneiras diferentes. “Gerações mais antigas tendem a associar valor ao trabalho como estabilidade e dever, enquanto os mais jovens tendem a crescer em um ambiente de performance constante, exposição e comparação. Ao mesmo tempo, vejo os jovens em um movimento contrário, buscando mais equilíbrio, saúde mental e qualidade de vida, mesmo que ainda haja culpa envolvida.”
Ainda que o mercado de trabalho enxergue a luta de funcionários mais jovens por jornadas mais delimitadas como preguiça, falta de esforço e improdutividade, Luca afirma que sua geração quer sim trabalhar, mas não a qualquer custo. “Não concordo com a ideia de que minha geração não gosta de trabalhar. Pelo menos, falando por mim, amo meu trabalho, mas hoje vejo que a vida é muito mais do que só trabalhar. O que buscamos é um meio de trabalhar com o que amamos, em condições dignas que nos permitam ter recursos e tempo para viver.”
Ainda assim, Luca sente que existe certa glamourização do sofrimento em rotinas de trabalho intensas, como se esse fosse o único caminho para o sucesso. Por isso, Jordana reforça cuidados para evitar tal comportamento. “Aprenda a respeitar limites e entender que descanso não é recompensa, mas necessidade. Estabeleça limites claros entre trabalho e vida pessoal para, aos poucos, desconstruir a ideia de que valor pessoal está no desempenho.”
A especialista também destaca a importância de ter hobbies, aproveitar momentos de qualidade com a família e amigos e, caso o cérebro esteja com dificuldade de sair do estado de alerta constante, procurar ajuda psicológica — como Luca, que encontrou na terapia maneiras de conseguir desligar e entrar em estado de descanso mais profundo.