Nas nove eleições presidenciais realizadas no Brasil desde 1989, nenhum candidato associado à chamada “terceira via”, tida como uma alternativa à polarização entre esquerda e direita, conseguiu prosperar eleitoralmente, segundo levantamento do Poder360. Para 2026, o cenário, de acordo com pesquisas de intenção de voto, volta a indicar vantagem dos polos tradicionais, com Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) na dianteira. Ronaldo Caiado, do PSD, e outros nomes que se colocam como opção, estão muito distantes da liderança.
Para o pesquisador de política Oswaldo Fernandes, a dificuldade da terceira via está diretamente ligada ao nível de politização da sociedade brasileira. “O Brasil é despolitizado. Essa despolitização gera polarização, as pessoas vão no embalo e assumem o lado A e o lado B”, afirma. Ele compara o cenário político a uma disputa esportiva. “A terceira via só teria sentido se tivéssemos um país politizado. Hoje temos como se fosse dois times de futebol disputando, junto com suas torcidas”, diz.
Ele argumenta que o país não desenvolve políticas de Estado, mas sim de governo, o que reforça decisões imediatistas e fragiliza projetos de longo prazo. “A ausência de debate estruturado sobre projetos de Estado reduz a racionalidade do processo político e fortalece escolhas baseadas em rejeição”, ressalta.
O pesquisador também avalia que há uma construção de liderança personalista na política brasileira. “A polarização é pela falta de ideias. O que a direita e a esquerda pregam? Nada. Ambos têm um líder mitológico. Isso é ruim para a democracia”, afirma. Nesse contexto, ele cita que a própria definição de terceira via se torna difícil em um ambiente de baixa politização.
Já o cientista social André Ramos analisa o fenômeno sob a ótica da estrutura partidária e da organização política no país. “A chamada ‘terceira via’ nunca teve chance real porque, na prática, ela é um conceito vazio de povo”, afirma. Segundo ele, partidos de centro não possuem a mesma capilaridade de legendas mais consolidadas nacionalmente, o que dificulta sua consolidação eleitoral.
Ramos também destaca que o sistema político favorece a polarização e a lógica de identidade. “O maior desafio para qualquer alternativa é que a polarização engole todas as pautas. Não existe mais vácuo ideológico e até pautas técnicas entram na guerra cultural”, diz. Para ele, o eleitorado tende a votar mais por identidade e rejeição do que por avaliação programática.