Desde a infância, quando brincava nas olarias da Chave, (bairro de Itupeva), eu já convivia com cerâmica e com o fazer tijolos. Sabia perfeitamente como se fazia, acompanhava e aprendia tudo sobre fazer, secar, queimar, a escolha do barro, de onde vinha, como era moído, até a comercialização em milheiros para a construção de Jundiaí da década de 1950. Mais tarde, isso não apareceu nos meus currículos escolares. Para minha surpresa, não era um assunto acadêmico e nem da moderna arquitetura que se aprendia.
Só a partir desse desconforto que, em 1977, iniciava a pesquisa, antes incipiente, com uma bolsa da Fapesp, Masp, e orientando pelo Prof.º Pietro Maria Bardi.
Então tudo se mostrava! A Colônia, que escolhi, foi completamente levantada e os resultados, muito especiais. O registro de tudo o que acontecia nesse lugar, até aquela data, foi feito e publicado a primeira vez com o livro “Cem anos da Imigração Italiana em Jundiaí” em 1988 que ganhou o Prêmio IAB – Instituto dos Arquitetos do Brasil - de 1988 e na sua reedição ampliada “Núcleos Coloniais e Construções Rurais” de 2006.
Esta história das cerâmicas teve sua descrição minuciosamente feita pelos protagonistas desse lugar, seus imigrantes italianos, colonos e que, na segunda geração, mantinham os hábitos, as casas e a história que comprovou! Já em 1988 relatava a produção de tijolos no Núcleo Colonial Barão de Jundiaí.
De acordo com as informações apontadas no projeto do Núcleo Colonial Barão de Jundiaí, em 1887, a região possuía inúmeras áreas de brejos e matas [...]se no lote não houvesse barro, os tijolos vinham de olarias já constituídas, ou então os próprios colonos usavam o barro local e a lenha proveniente do desmatamento para cozer os tijolos necessários para as construções de suas próprias casas. [...] trouxeram consigo, nas grandes levas de imigração, técnicas construtivas cuja popularização deu início à história da habitação em alvenaria de tijolos em São Paulo.
Consegui, de cada casa do Núcleo Colonial Barão de Jundiaí, seus tijolos, a origem, a olaria, o proprietário, os primeiros fornos e o cotidiano até a data da pesquisa. Estão todos documentados com foto e procedência. Tudo isso exposto por diversas vezes na exposição “Itália-Brasil. Relações entre os séculos XVI e XX” no Museu de Arte de São Paulo – Masp em 1980, e “Itália-Jundiaí” no Museu Histórico e Cultural de Jundiaí, Solar do Barão, em 1985.
Os documentos são importantes e organizados museologicamente e com procedimentos até então inéditos de pesquisa.
A pequena coleção que fiz é um potente documento desse fato que transformou a paisagem nas cidades do Estado de São Paulo. Documentos identificados e organizados desde a pesquisa. Teve desdobramentos os mais diversos, e agora em São Paulo, nesta semana divulga-se a organização sistematizada dos tijolos a partir do lugar que foi encontrado.
Já denominada ‘tijoloteca’ a pesquisadora Angélica Moreira da Silva classificou e catalogou esses tijolos, onde alguns foram recolhidos e estão guardados desde 1992.
Assumem tal interesse e importância, que a notícia ocupou a capa da Folha de São Paulo no dia 5 de abril. Se já não vinham sendo empregados seu uso em construções, pisos , paredes com tijolos antigos à vista, agora estão caros e desejados.
Eduardo Carlos Pereira, arquiteto e urbanista, é autor do livro “Núcleos Coloniais e Construções Rurais”