OPINIÃO

O MOÇO DO CARRINHO


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Após ouvir sua história - e não é de hoje -, rezo pelo moço. A mãe morreu aos sete anos dele. Só acreditou que ela não levantaria do caixão ao corpo esfriar. Sentou-se do lado e pensou no como seria agora. O tio, no velório, toda hora chamava a atenção dele que balançava as pernas: “Já disse que você é louquinho”. Ah, o tratamento para saúde mental desde a infância! Depois a sina de ser chamado de louquinho e perigoso.

O pai nunca soube quem era. Segredo da mãe. Moravam junto com a avó que morreu dois anos antes da mãe. As duas de muito cigarro no pulmão. 
Depois do enterro, foi o tio, que o chamava de louquinho, que o levou para casa. Cheirava álcool, batia na tia, nas crianças e mais nele.

Com 11 anos decidiu ir embora. Fugiu e ninguém procurou porque ele não fazia falta. No Estado de São Paulo, chegou no ônibus arrebentado da Bahia, junto com trabalhadores do campo.

Pensou que poderia ficar junto com os trabalhadores contratados, mas o capataz não deixou. Era franzino, chamava a atenção pela idade e daria confusão para eles.

Vive assim, de canto em canto, à espera de que um dia dê certo. Com 18 anos, conseguiu sua independência de morador de rua sem se esconder da polícia.

Em uma das cidades, pela qual passou, pode até estar agora, aprendeu com os outros a pegar papelão e vender. Juntou dinheiro e comprou seu carrinho, tipo daquele de mercado. Cabia mais coisas. Além disso, carregava o cobertor e a boneca da mãe. A mãe a achou um dia no lixo e ficou com ela. O carrinho era a sua casa.

Há poucos dias o vi em uma esquina de seu mundo. Abatido, contou-me que perdera o carrinho. Chegou a mulher autoridade com outra gente que manda. Não querem mais moradores na rua. Tiraram os carrinhos e jogaram no caminhão. A boneca da mãe foi junto. Perguntei se não haviam procurado a Defensoria ou o Ministério Público, pois isso se chama apropriação indébita (Art. 168 do Código Penal). Apoderaram-se de algo que não era deles. Respondeu-me que tem medo de mexer com autoridade. Nunca foi preso, contudo já ficou, inúmeras vezes, encostado na parede para o revistarem.

O Padre Márcio Felipe de Souza Alves, Reitor e Pároco no Santuário Santa Rita de Cássia, na Celebração da Paixão e Morte de Jesus e Adoração da Cruz, comentou o fato e disse que, nessa situação, o Cristo foi também desfigurado. Sabemos que os moradores de rua incomodam, cheiram mal, alguns deles furtam, mas não se resolve o problema ao espoliá-los.

Nosso querido Bispo Diocesano, Dom Arnaldo Carvalheiro Neto, também se incomodou com o acontecido e falou que se quisermos nos reconhecer no caminho de Jesus, devemos, diante das situações desafiadoras, abrir-nos para um caminho de vida nova. Assim fez Jesus. Sinalizou, nosso Bispo, a Campanha da Fraternidade, que nos convida a cultivar a cooperação e promover iniciativas para superar as desigualdades.

O Padre Márcio Felipe ainda insistiu que Jesus desejava Se encontrar com todas as pessoas, independe de quem fossem. E que Jesus vem ao encontro daqueles que carregam um coração ferido pelas circunstâncias de sua história, sendo impossível ser discípulo de Jesus sem se comover.

Há atitudes que acrescentam em poder e outras em amor que salva. A escolha é nossa.

Maria Cristina Castilho de Andrade, professora e cronista 

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