OPINIÃO

Sem autossuficiência de energia, não somos ninguém


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O Brasil já esteve mais próximo de um objetivo estratégico do que muitos imaginam: tornar-se verdadeiramente autossuficiente em energia e menos vulnerável às oscilações globais. Ainda assim, decisões políticas erráticas, descontinuidade de políticas públicas e falta de visão integrada fizeram com que essa oportunidade fosse apenas parcialmente aproveitada — especialmente diante de tensões internacionais envolvendo o Irã, que pressionam o mercado de petróleo.

A descoberta do Pré-sal colocou o país em posição privilegiada no cenário energético global. Com grandes reservas e tecnologia dominada pela Petrobras, o Brasil reuniu condições para garantir abastecimento interno e até ampliar sua influência internacional. No entanto, essa vantagem não se traduziu em autossuficiência sustentável.

O erro central foi não transformar abundância em estratégia. Enquanto o Brasil avançava de forma intermitente, países como a China adotaram uma abordagem pragmática e de longo prazo: diversificaram sua matriz energética, investiram pesadamente em fontes renováveis e garantiram controle sobre cadeias críticas, como baterias e painéis solares. Hoje, mesmo sendo grande importadora de petróleo, a China reduziu significativamente sua vulnerabilidade ao ampliar sua segurança energética por múltiplas frentes.

Mais recentemente, a Índia tem seguido caminho semelhante. O país acelerou investimentos em energia solar e eólica, ao mesmo tempo em que diversificou fornecedores de petróleo e ampliou sua capacidade de refino. Isso permite maior resiliência diante de choques externos — inclusive aqueles provocados por tensões com o Irã — reduzindo impactos diretos sobre sua economia.

O Brasil, por outro lado, permaneceu excessivamente dependente de ciclos. Faltou uma política contínua que integrasse exploração do petróleo com um plano robusto de transição energética. Embora o país tenha enorme potencial em renováveis — e uma base relevante de biocombustíveis — os avanços ocorreram de forma fragmentada, sem escala suficiente para blindar a economia.

Outro fator crítico foi a instabilidade interna. Mudanças frequentes nas diretrizes energéticas, somadas a crises institucionais, comprometeram a previsibilidade necessária para investimentos de longo prazo. A própria Petrobras enfrentou momentos de fragilidade que limitaram sua capacidade de liderar esse processo no momento mais decisivo.

O contraste é claro: enquanto China e Índia trataram energia como política de Estado, com planejamento e execução consistentes, o Brasil oscilou entre avanços e retrocessos. O resultado é uma vulnerabilidade que se manifesta sempre que o cenário internacional se tensiona.

A lição é objetiva: autossuficiência energética não é apenas uma questão de recursos naturais, mas de estratégia, governança e continuidade. O Brasil ainda tem condições de reverter esse quadro — mas precisará agir com a mesma disciplina e visão de longo prazo que hoje diferenciam as principais economias emergentes.

Ariadne Gattolini é jornalista e escritora. Pós-graduada em ESG pela FGV-SP, administração de serviços pela FMABC e periodismo digital pela TecMonterrey, México. É editora-chefe do Grupo JJ

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