OPINIÃO

O alimento que não pode faltar


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Nossa era de paradoxos oferece espetáculos antagônicos: a ciência garante a longevidade, a morte continua a ceifar vidas precocemente. Há uma epidemia de obesidade a conviver com a situação famélica de milhões. Riqueza escandalosa de um lado, abjeta miséria do outro.

Falo de um alimento que é acessível a todos os crentes. A Eucaristia. Hoje é o dia em que se celebra a instituição da Eucaristia, o mais sublime legado de Cristo. Sua instituição é narrada pelos quatro evangelistas e constitui base consistente na certeza de que Deus continua conosco. Está à nossa disposição. Basta aceitá-Lo.

Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI, era um filósofo respeitado. Conseguia dialogar com todos. Há um belo livro em que ele conversa com Jürgen Habermas, recentemente falecido aos 96 anos. Em seu livro “Jesus de Nazaré”, da entrada em Jerusalém até à Ressurreição, Ratzinger se detém no exame da instituição da Eucaristia. Cita um teólogo protestante, Ferdinand Kattenbusch, que procurou mostrar que as palavras da instituição de Jesus durante a Última Ceia constituiriam o ato verdadeiro e próprio da fundação da Igreja. Foi a fórmula pela qual Jesus ofereceu a seus discípulos a suprema novidade, que os unia e fazia deles uma comunidade. Com a Eucaristia, foi instituída a própria Igreja. Ela se torna unidade, torna-se o que é a partir do corpo de Cristo e, conjuntamente, a partir da sua morte, fica aberta à vastidão do mundo e da história.

Para Bento XVI, “a Eucaristia é o processo visível do reunir-se, um processo que, em cada lugar e por meio de todos os lugares, é um entrar em comunhão com o Deus vivo, que aproxima, a partir de dentro, os homens uns dos outros. A Igreja forma-se a partir da Eucaristia. Dela recebe a sua unidade e a sua missão. A Igreja deriva da Última Ceia, mas por isso mesmo deriva da morte e ressurreição de Cristo, por Ele antecipadas no dom do seu corpo e do seu sangue”.

Tanto em São Lucas como nos textos de Paulo, o Apóstolo dos Gentios, depois da frase “isto é o meu Corpo, que é dado por vós”, temos a ordem da repetição: “Fazei isto em memória de Mim”. Essa ordem não era a da celebração pascal, festividade regulada pela tradição sagrada e ligada a uma data concreta. A ordem de Jesus diz respeito apenas àquilo que representou uma novidade: o partir o pão, a oração de benção e agradecimento e, com ela, as palavras da transubstanciação do pão e do vinho.

A tradição religiosa sofre percalços numa era de intensa materialização, de busca da subsistência e de inflação de informações, que não permitem aos humanos um filtro saudável, para reter apenas o que interessa. O católico dispõe de um privilégio que é o poder se encontrar com Deus no sacrário e poder recebê-Lo na comunhão. Se isso fosse realmente apreendido, assimilado e vivido, o mundo seria outro. Pois é incapaz de fazer mal a qualquer semelhante, aquele que está imbuído da convicção de que Deus está com ele.

Deus não morreu. Nada obstante a dramática perda de fé, num declínio lamentável da frequência à Igreja, subsiste o núcleo resistente dos humanos providos de fé. A negatividade moderna deriva da dura realidade que é exibida pelas redes sociais, a preocupação com o sexo, com o dinheiro, com o divertimento a qualquer custo. Mas é preciso resistir e é confortador saber que nunca se está só, se a minha alma se dispuser a receber a visita do Criador.

Pensar nisso é recobrar o ânimo para continuar a encarar a realidade e fazer força para que o mundo se torne melhor, para que as pessoas de fato vivam a harmonia, a fraternidade, assegurando a todos a dignidade de filhos de Deus. Feliz Quinta-Feira Santa para todos os seres de boa vontade!

José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo

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