OPINIÃO

A Odisseia do jovem moderno contra o algoritmo


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O escritor Joseph Campbell, ao mapear a "Jornada do Herói", descreveu o ponto de partida como o “Mundo Comum”. Um lugar seguro, mas limitado, onde o protagonista aguarda um chamado para a aventura, para desbravar lugares desconhecidos, que promove o alimento e o crescimento da alma. Para a Geração Z e os Alpha, no entanto, o "Mundo Comum" não é mais uma vila pacata ou um escritório monótono, mas um ecossistema digital customizado. O herói moderno não está preso por muros de pedra, mas por grades de códigos e preferências.]

Viver a jornada épica em tempos de bolhas digitais tornou-se um desafio mais que hercúleo. O conforto da validação constante, no qual o algoritmo atua como um espelho narcísico que devolve apenas o que já pensamos, criou uma zona de segurança anestesiante. Ali, não há o "limiar" de Campbell a ser cruzado. Não há o confronto com o desconhecido. Sem o atrito de ideias divergentes, o jovem corre o risco de permanecer paralisado, trocando a espada da ação pelo teclado do smartphone.

A patologia desse isolamento é a apatia. Quando o "mais do mesmo" substitui o desafio, a luz da criatividade se apaga. A vontade de explorar o mundo real, cheio de arestas, complexidades, frustrações e imprevistos, é substituída pela estabilidade estéril da tela. Essa omissão abre buracos na alma, dando passagem a um caos interno. Sem propósito, fragilizado e sem a auto segurança que o amor-próprio proporciona, passa a depender de likes em vez de conquistas concretas.

Mas o ser humano, em sua essência, é movido pelo obstáculo. A jornada exige a coragem de sair do feudo digital e enfrentar o desconforto das novas perspectivas. É no erro, na mudança inesperada e na resistência que se forjam a resiliência e o autoconhecimento.

Nessa odisseia contemporânea, a figura do mentor torna-se vital. Se na mitologia tínhamos o ancião ou o guia espiritual, hoje ele se manifesta na curadoria consciente. O jovem herói precisa buscar influenciadores que provoquem, não que apenas confortem, e aprender a usar a própria tecnologia como ferramenta de expansão, e não apenas de confinamento. O mentor é aquele que ensina a "hackear" o próprio algoritmo para descobrir o que está além da fronteira da bolha.

O chamado para a aventura está posto. O convite é para que o jovem deixe o sedentarismo intelectual e encare o processo de aprendizado como uma experiência lúdica e gradual. A transformação pessoal não ocorre em um scroll infinito, mas no tempo da vida real.

Cada jovem é o protagonista de sua própria história. O desafio desta década é converter a tecnologia de um facilitador de conforto, em um motor de impacto. A verdadeira jornada começa quando se desliga a tela e se permite, finalmente, ser o herói de uma realidade que nenhum código consegue prever.

Rosângela Portela é jornalista e mentora em comunicação

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