Existe algo que vai muito além de um uniforme quando falamos da camisa da seleção brasileira. Ela não é apenas um símbolo esportivo. Ela carrega história, identidade, pertencimento e, acima de tudo, emoção. Vestir a amarelinha sempre foi, para o brasileiro, um ato quase ritualístico, uma forma de se conectar com algo maior, com uma paixão coletiva que atravessa gerações.
Nos últimos tempos, porém, vimos um distanciamento entre essa essência e algumas decisões que envolvem o futebol brasileiro. A recente campanha da Nike, com termos como “Brasa” e até chamar o amarelo de “Canary”, evidencia algo importante: quando se perde a conexão com a raiz, com o sentimento real do povo, o resultado dificilmente ressoa. “Brasa” não ecoa nos estádios, não pulsa nas arquibancadas, não representa a forma como o torcedor se reconhece. “Canary”, por sua vez, parece ainda mais distante, quase como um rótulo importado que não traduz a vivência de quem cresceu chamando simplesmente de seleção, de Brasil, de amarelinha.
A sensação que fica é clara: pessoas que não vivem o futebol, que não sentem o futebol, estão tentando criar símbolos para quem vive isso desde criança. E futebol, no Brasil, não se aprende em campanha publicitária. Ele se aprende na rua, no improviso, na arquibancada, na emoção crua de jogos e jogos vistos nos estádios de futebol , nos campeonatos de várzea, em clubes e pela televisão.
O que o torcedor deseja não é algo complexo. Ele quer se ver representado. Quer uma camisa que respeite sua história, que honre o peso que ela carrega. A camisa da Seleção Brasileira de Futebol é memória afetiva, é o gol narrado no rádio, é o chão de terra que vira campo, é o sonho que começa descalço em tantos meninos que queriam ser jogadores de futebol quando crescessem.
A camisa azul, tradicionalmente o uniforme 2, sempre teve um simbolismo próprio dentro da história da seleção, na verdade ela nasce azul porque azul é o manto de Nossa Senhora da Aparecida, padroeira do Brasil. Mas recentemente, algumas leituras e associações trouxeram questionamentos curiosos, até desconfortáveis para parte do público, com interpretações que fogem completamente do que o torcedor comum valoriza. Nem precisamos entrar a fundo nesse ponto polêmico, mas ele nos convida a refletir: em que momento começamos a nos afastar tanto do essencial?
Talvez o ponto mais interessante dessa discussão seja o quanto ela revela algo mais profundo sobre nós. O futebol sempre foi um reflexo da nossa cultura, da nossa forma de sentir e de se expressar. E quando essa conexão se perde, surge um incômodo que vai além da estética ou do marketing. Surge uma sensação de não pertencimento.
E aqui entramos em um paralelo importante com algo que frequentemente abordamos quando falamos de saúde, movimento e corpo: a coerência entre essência e expressão. Assim como no corpo humano, quando há desconexão entre estrutura e função, surgem compensações, dores e desequilíbrios, também na cultura isso se manifesta. Quando nos afastamos daquilo que é autêntico, criamos tensões invisíveis, mas perceptíveis.
Talvez seja exatamente isso que o torcedor brasileiro esteja pedindo. Não é apenas uma crítica a uma campanha publicitária. É um pedido por reconexão. É o desejo de voltar a sentir orgulho ao vestir a camisa, de olhar para ela e reconhecer ali a sua história, sua cultura, sua paixão. O futebol pede esse retorno às origens. Um resgate do que é genuíno, do que é simples, do que é verdadeiro.
Porque, no fim, a força está na autenticidade e quando há alinhamento entre o que somos e o que expressamos, tudo flui melhor. O movimento ganha leveza, a identidade ganha força e a conexão se torna inevitável. Muita saúde a todos.
Liciana Rossi é especialista em coluna e treinamento corretivo, pioneira do método ELDOA no Brasil