Era domingo. Estávamos na Igreja à espera da Água Viva que recebemos a cada Missa. Capela Santa Luzia da Paróquia do Santuário Diocesano Santa Rita de Cássia. O Celebrante, o Padre Márcio Felipe de Souza Alves, seu Reitor e Pároco.
O Evangelho do encontro da Samaritana com Jesus no poço de Jacó (João 4, 1-30). Até os discípulos, quando voltaram, se surpreenderam ao ver Jesus conversando sozinho com uma mulher, ainda mais samaritana. Os samaritanos eram considerados hereges e cismáticos, já que, misturados a povos não-israelitas, construíram um templo que rivalizava com o de Jerusalém. Ademais, na cultura da época naquele lugar, jamais um homem deveria se dirigir a uma mulher sozinha.
Segundo o Retiro on-line dos Carmelitas Descalços, é o fim do ativismo moralizador.
Padre Márcio Felipe prosseguiu com sua fala. Comentou que Jesus sempre queria se encontrar com as pessoas. Não lhe fazia perguntas constrangedoras. Mesmo no seu cansaço, com sede, sentado junto ao poço de Jacó, Ele transmitiu vida à samaritana. Ele não tinha como tirar água para saciar sua sede, mas Ele desceu ao fundo do poço do coração da samaritana, a partir de sua fé, após Ele lhe falar. Ela ficou tão maravilhada, que saiu a anunciar que encontrara o Senhor. Deixou o seu cântaro. E é assim que Ele faz conosco, se permitirmos.
Prosseguiu o Padre Márcio Felipe: Ele está com cada um de nós, sem interrogatórios. Que nos apoiemos na Sua Cruz para buscar a Água que nos purifica e, neste caminho, em direção a Jerusalém, levemos os nossos sofrimentos, sem murmurar. Na Cruz, Seu coração traspassado, como um poço, deixou jorrar as fontes de Água Viva que podem voltar a abrir o nosso coração. Tocou-me tanto.
Padre Márcio acabara de encerrar a homilia quando uma moça, de aparência desbotada, atravessou a Capela pelo corredor central. Havia em seu rosto certa leveza, apesar de transparecer a sua precariedade. Sentou-se ao meu lado e me sorriu. Sorri também. Senti que o amor de Deus me abraçava com ela ao lado. Mostrou-me as queimaduras. Acidente no fogão. Em seguida, abaixou um pouco a camiseta e me indicou o acesso venoso para o cateter. Está com leucemia, mas interrompera o tratamento por vontade própria. De imediato pensei: é a Samaritana. Jesus está com ela. Do altar, Padre Márcio Felipe pensou o mesmo. Dois dias antes, ele a conhecera, junto com equipe de vicentinos da Paróquia. Não perguntou nada, mas ela, junto com o companheiro, quis lhe relatar algumas dificuldades, antes mesmo de “residir” debaixo da ponte. Atualmente, estão em um cômodo cedido.
Acontecimento forte. Encontrava-se no altar aquele que estivera em seu abrigo e lhe oferecera olhar sem preconceito, acolhimento e bênção, além de sofrer com a dor deles. Sacerdote do Senhor. Assistiu à Missa e depois se dirigiu a ele. O Padre que, cônscio de sua vocação, vivencia e realiza o acontecimento do poço de Jacó.
Em sua homilia, Padre Marcio enfatizou o que disse São Paulo aos Romanos (5, 8): “Pois bem a prova de que Deus nos ama é que Cristo morreu por nós quando éramos ainda pecadores”. Mostrou-nos algo extraordinário: Ele segue conosco.
Amém.
Maria Cristina Castilho de Andrade, professora e cronista