OPINIÃO

Tom Jobim, ouvidor do Brasil


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Livro do jornalista Ruy Castro, “O ouvidor do Brasil – 99 vezes Tom Jobim”, reúne quase uma centena de crônicas em que Antônio Carlos Brasileiro Jobim aparece como protagonista ou figurante. O volume é um delicioso retrato da música brasileira no século 20, de seus bastidores, causos, fofocas. Além do anedotário, há também muita informação, além das opiniões de Ruy Castro.

O autor conta que se encontrou pela primeira vez com Tom Jobim em 1968. Ele era um repórter iniciante na frente de um monstro da música brasileira e mundial, reconhecido pela Bossa Nova e por canções que rodaram o planeta. Vieram outros encontros. Tornaram-se amigos. Jobim, por sinal, foi uma das principais fontes quando Ruy Castro escreveu “Chega de saudade”, o memorável livro acerca da Bossa Nova.

A maior parte dos textos de “O ouvidor do Brasil...” foi publicada originalmente na “Folha de S.Paulo”, onde o jornalista escreve regularmente. Um tantico foi feito especialmente para o livro, a fim de ligar assuntos e esclarecer passagens. Na mesa das fofocas saborosas, há muito a ser servido: como o piti de João Gilberto ao saber que Frank Sinatra não só havia convidado Tom para cantar ao lado dele, Sinatra, como também para ser o violonista do álbum. Ou da relação de admiração entre Jobim e César Camargo Mariano, ambos se respeitando muito, mas com visões diferentes acerca do piano. César, enamorado pelo teclado eletrônico, chamava o instrumento tradicional de “piano de pau”, para escândalo de Tom. Mas justiça seja feita ao “maestro soberano”, como o definiu Chico Buarque. No universo da música, em que egos inflados detonam outros egos, maiores ou não, e a maledicência corre solta, de Jobim não vai se conhecer a opinião depreciativa a respeito desse ou daquele sujeito.Ué, Tom Jobim não falava mal de ninguém? Falava, mas só em off.

Com o sucesso mundial, os produtores cinematográficos procuravam o compositor para trilhas sonoras de filmes. Mas por considerar, em geral, subaproveitadas as músicas no cinema, Jobim fugia dessa turma. Mas não fugia dos amigos cineastas brasileiros, como Paulo César Saraceni, para quem compôs, por exemplo, a trilha de “Porto das Caixas”. Há muitas histórias vividas nos Estados Unidos, país no qual passou temporadas e gravou alguns de seus álbuns. Foi lá, por sinal, que rolou a mutreta perpetrada por um tal Norman Gimbel, que letrou a versão em inglês de “Garota de Ipanema”.

Quando o compositor morreu, em 1994, Gimbel registrou como sua a canção mundialmente famosa. A família Jobim levou anos para reverter a maracutaia nos tribunais.

Apaixonado conhecedor da fauna e flora brasileiras, com o tempo o maestro foi boicotado por parte da mídia por tratar da destruição da natureza, muito antes de o tema tornar-se incontornável. O jornalista chegou a ouvir de mais de um editor que Jobim era “um cara ressentido”, “chato demais”, por “só falar de ecologia”. Pois é, como o próprio Tom Jobim definiu: o Brasil não é para amadores.

Fernando Bandini é professor de Literatura 

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