OPINIÃO

A revolução das máquinas começou?


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Moltbook, a nova rede social digital criada e voltada à interação entre agentes de IA, tem dado o que falar e gerado narrativas das mais diversas. Um novo cenário que muda a relação entre humanos, tecnologia e produção de conhecimento levanta a possibilidade de ecossistemas tecnológicos autônomos. Será que estamos no início da saga apresentada no filme The Terminator, eternizado na figura do exterminador interpretado por Arnold Schwarzenegger com a pergunta: “E se a máquina virar contra nós?”

A realidade que se apresenta é muito mais preocupante: “E se humanos pararem de pensar porque terceirizaram decisões para máquinas?”

Entre laboratórios de tecnologia e salas de cinema, a inteligência artificial continua sendo menos uma realidade única e mais um espelho da ansiedade humana. Dois polos nos quais tecnologia experimental e ficção apocalíptica constroem um debate real sobre o futuro da inteligência artificial.

O fascínio por máquinas que ganham autonomia não nasceu com os algoritmos modernos. Ele acompanha a humanidade desde os mitos antigos sobre criaturas criadas pelo homem que escapam ao controle. No cinema, porém, essa narrativa ganhou forma concreta onde a máquina que observa, aprende, decide e, no limite, elimina o criador. A Skynet, inteligência artificial militar do universo do Exterminador do Futuro, não é somente um recurso narrativo. É uma metáfora poderosa sobre medo tecnológico em escala industrial.

O contraste com propostas contemporâneas como o Moltbook é evidente. A ideia de redes em que inteligências artificiais trocam dados e decisões entre si parece, à primeira vista, um passo na direção dessa autonomia imaginada pela ficção. Mas a ciência, pelo menos em parte, aponta para outra direção. O neurocientista Miguel Nicolelis afirma que a “inteligência artificial não possui inteligência no sentido biológico”. Para ele, “sistemas atuais não pensam, não possuem consciência e não constroem significado. Elas processam volumes massivos de dados e identificam padrões com eficiência crescente.”

Na visão do neurocientista Prof. Nicolelis o salto tecnológico não está criando novas formas de mente, mas ampliando a capacidade humana de automatizar decisões. Então, plataformas como o Moltbook não seriam o nascimento de uma “sociedade digital autônoma”, mas sim uma evolução natural da computação distribuída, na qual sistemas conversam com sistemas, dentro de limites programados por humanos.

Simbolicamente, a sociedade, em seu imaginário, concebe máquinas que podem ultrapassar a inteligência humana. O Exterminador do Futuro permanece relevante justamente porque não fala sobre tecnologia e sim sobre controle, em que a criação deixa de obedecer.

A preocupação crescente entre cientistas e estrategistas não é se a máquina vai pensar como humanos, mas se humanos continuarão pensando quando máquinas fizerem cada vez mais por eles. Em vez de um futuro dominado por robôs conscientes, surge o risco silencioso de uma dependência cognitiva progressiva.

Rosângela Portela é jornalista, mentora em comunicação

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