O início do ano é a época em que mais vemos ocorrerem as resoluções, projetos e promessas para o tempo novo que se abre. Acredito que tudo é absolutamente válido, especialmente se nos motivarmos a ir para um maior potencial de vida.
Contudo, Quando reconhecemos quem somos, eliminamos a necessidade de sustentar máscaras sociais de quem as faz. Pode parecer um pouco estranho, visto que, por princípio, ninguém se compromete com algo que vai lhe trazer prejuízo, mas as verdadeiras motivações podem emergir de uma parte não tão consciente do nosso ser e por isso, um pouco fora do “bom senso”.
Recordo-me de um caso que atendi há cerca de 20 anos, em uma pequena cidade do interior paulista onde atuava como médico-adjunto de uma clínica de fisioterapia e reabilitação. O paciente era um senhor de meia idade, um tanto baixo, encurvado, pele escura e envelhecida pela exposição ao sol.
Ele era um maratonista muito conhecido na região. Tinha o costume de portar uma faixa com o nome da cidade nas provas em que corria e isso lhe criava uma exposição midiática interessante, já que era filmado pela televisão nas largadas e no percurso das provas.
Ao caminhar para entrar no meu consultório notei nele uma estrutura óssea atarracada e uma movimentação “em bloco”, pouco fluida. Não era o padrão de movimento que eu esperava para um corredor de longa distância. As queixas deles compreendiam vários tipos de dores, especialmente em coluna lombar e quadril, onde havia um desgaste bem considerável. Em exames e aparência, ele parecia ao menos dez anos mais velho do que realmente era.
Quanto maior a prova que o atleta faz, em distância, maior tem que ser o investimento dele em musculação para estabilidade e mobilidade (específica para corredores), nutrição e suplementação. A maratona, com mais de 42km a serem corridos, é um “pacote” que ultrapassa o dia do evento em si: trata-se de um estilo de vida para quem a prática.
O cliente, no entanto, pouco fazia disso. Comia o que achava correto, sem acompanhamento. Suplementos eram consumidos da mesma forma. Treinos paralelos eram esporádicos e inespecíficos, não proporcionando a segurança que o corpo dele precisava. Por que ele se “sabotava” desta maneira?
Ao conversar com ele, procurando entender suas motivações, percebi que se sentia muito conectado com as pessoas ao “dar o exemplo de uma vida saudável através do esporte”, sentindo a satisfação de ser útil para a comunidade. Na verdade, queria ver comigo o que “precisava tomar” para continuar fazendo o que sempre fez, da maneira que lhe convinha.
Difícil. Com os recursos que possuía, minha ação imediata seria intervir em exercícios, nutrição, acupuntura e diminuir a distância e frequência das provas, ao menos por um ano. Ele era pouco propenso a aceitar o proposto, já que a “maratona é a prova da superação da vontade sobre as desculpas” (palavras dele) e regredir poderia ser visto como uma fraqueza para sua persona “heroica”.
Exercício faz bem à saúde? Sim. Do jeito que ele estava se submetendo? O corpo dava sinais de que “não”, mas ele não escutava.
Havia uma demanda por atenção que o levava a cometer alguns crimes contra a própria capacidade física, obrigando-se a fazer algo muito além do que tinha condições. Suas crenças e determinações eram boas explicações e justificativas para os seus problemas, mas era nos sintomas de dores que estavam, encriptados, seus verdadeiros desejos e necessidades.
Dr. Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em Medicina Tradicional Chinesa e Osteopatia