Seja para um momento romântico com minha esposa ou para uma interação leve e diferente com a família e amigos, “sair para jantar” é uma das formas de lazer que me agrada muito. Para aqueles que se identificaram, imagino que tenham seus restaurantes preferidos, onde se conhece bem o cardápio e se sabe como serão atendidos.
São lugares que se consagraram por fornecer várias experiências boas, dando uma sensação de conforto e acolhimento quando estamos por lá. Por isso mesmo são escolhidos com frequência e de maneira bem fácil, tal quando perguntados qual o destino da noite e ao que respondemos: “Ah, vamos naquele ‘de sempre’ mesmo!”.
Acreditem ou não, a sensação de bem-estar que obtemos através do hábito de escolher os caminhos conhecidos e seguros para resultados prazerosos é tão antigo quanto o nosso próprio sistema nervoso e aplicamos esse recurso em praticamente tudo. O problema é que esse algoritmo, por vezes, nos coloca em situações desvantajosas, já que, ao escolher o caminho mais fácil, evitamos situações novas e de resultado incerto, mesmo com sinais de que deveríamos escolhê-las.
Imagine que seu restaurante favorito começa a demorar muito para lhe atender. A comida chega fria. Você reclama, é ouvido, pedem desculpas, justificativas são dadas e a vida segue. Algumas semanas depois, acontecem aumentos nos preços. No mês seguinte, o prato que você mais gostava saiu do cardápio.
A partir daí, a maioria de nós já teria procurado diversão em outras paragens, não é verdade? Concordo. Agora, imaginem por qualquer motivo que queiram, que não existem outros restaurantes para serem escolhidos. Imaginem que o cérebro, após análise baseada nos seus conhecimentos e eventos vividos, acredita (piamente) que não existem outras opções de restaurantes: compulsoriamente, tem que ser aquele ou não haverá mais a diversão do final de semana.
Percebem que neste caso, temos a tendência de contornar os pontos negativos que surgiram pois, ainda que o restaurante não dê a experiência desejada, é uma opção melhor do que não haver experiência? Por mecanismos psíquicos semelhantes a este modelo simples é que encontramos pessoas presas em relacionamentos falidos por décadas, sob abusos, sob humilhação, mas incapazes de se desvencilhar, por medo de não encontrar algum tipo de segurança que acreditam (piamente) que somente possa ser encontrada no seu algoz companheiro(a).
Caso venha ao meu consultório, essa pessoa dirá provavelmente que seu problema é depressão, que perdeu a alegria de viver. Eu compreendo o sofrimento dela, mas não creio que a depressão seja o núcleo do problema.
A depressão foi a forma encontrada para que continuar caminhando na vida, resignado(a), carregando um relacionamento que há muito não serve mais, pois do contrário, a decisão de ruptura em nome de um amor-próprio poderia levar a um enfrentamento de medos maiores ainda: ficar só e por conta própria, crenças subconscientes sobre rejeição e abandono ou ainda outras possibilidades, todas elas muito difíceis de lidar.
Concluindo, da próxima vez que se sentir incomodado com o serviço do seu restaurante favorito, questione-se do que você está sendo “salvo” de ver, insistindo em permanecer no lugar onde está. Claro, isso não é só sobre restaurantes.
Alexandre Martin é médico, especialista em acupuntura e com formação em medicina chinesa e osteopatia.(xan.martin@gmail.com)
Comentários
1 Comentários
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Maria Cibele 15/03/2025Fica-se numa espécie de Zona de conforto, mesmo que ela não seja tão confortável assim.