"Minha misofonia gritou!" – essa frase se tornou comum nos comentários das redes sociais, muitas vezes usada como forma de humor ou exagero para expressar desagrado com algum som. Mas, para quem realmente sofre de misofonia, essa brincadeira pode ser dolorosa e minimizar o verdadeiro sofrimento causado pela condição.
A misofonia é um distúrbio neurológico caracterizado por uma aversão intensa e irracional a sons específicos, geralmente do dia a dia, como mastigar, estalar chicletes, digitar no teclado ou até mesmo sons respiratórios. Essa aversão pode desencadear uma série de reações emocionais e fisiológicas negativas, como raiva, nojo, ansiedade, irritabilidade, sudorese, taquicardia e até mesmo ataques de pânico.
"Há indícios de que a misofonia pode estar relacionada a uma hipersensibilidade auditiva e a uma alteração na maneira como o cérebro processa sons", explica o Dr. Cleberson Galvão, neurologista. "Essa hipersensibilidade pode levar a uma interpretação errônea dos sons, que são percebidos como ameaçadores ou desagradáveis, mesmo que sejam neutros para a maioria das pessoas."
O diagnóstico da misofonia é feito através de uma avaliação clínica detalhada, que inclui a análise dos sintomas, histórico médico e testes auditivos. O tratamento ainda está em desenvolvimento, mas diversas abordagens podem ser úteis, como terapia cognitivo-comportamental, técnicas de relaxamento e biofeedback (método que mede essas respostas do corpo em determinadas situações). "O tratamento geralmente é multidisciplinar, envolvendo diferentes profissionais de saúde, como neurologistas, psicólogos, fonoaudiólogos e otorrinolaringologistas. O ponto de partida é trabalhar a terapia cognitivo-comportamental (TCC). Através da TCC, os pacientes aprendem a identificar seus gatilhos, modificar pensamentos distorcidos e desenvolver mecanismos de enfrentamento para lidar com as reações emocionais e fisiológicas negativas aos sons", explica.
É importante lembrar que a misofonia não é frescura ou exagero. "É uma condição real que causa sofrimento significativo para quem a experimenta. É fundamental que as pessoas reconheçam a gravidade do problema e busquem ajuda profissional adequada."
BANALIZAÇÃO NAS REDES SOCIAIS
A banalização de temas sérios nas redes sociais se tornou um fenômeno cada vez mais preocupante. Um estudo recente da Universidade de Oxford revelou que 72% dos jovens entre 18 e 24 anos já presenciaram ou sofreram com a banalização de doenças e distúrbios psicológicos em plataformas como TikTok e Instagram.
Neste cenário, a hashtag #misofonia no TikTok já acumula mais de 1 bilhão de visualizações, mas grande parte do conteúdo publicado é humorístico ou banal, minimizando o sofrimento real das pessoas que convivem com a condição. "É importante que as pessoas se informem sobre a doença e evitem usar termos como 'misofonia' de forma leviana", comenta o neurologista. "Isso só contribui para o sofrimento de quem realmente sofre com a condição", finaliza.