Opinião

Páscoa, ciclo de morte e nascimento

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A ideia nuclear da Páscoa é o processo de renovação: mostra que a vida se constitui em um processo cíclico de morte e nascimento, de forma interligada e inseparável. A princípio, isso pode parecer um pouco chocante, pois na nossa educação moderna, nos doutrinamos a ter um extremo medo da morte, procurando evitá-la a todo custo, como se isso fosse possível.

Como médico, tive que assistir alguns pacientes nos seus momentos de morte, bem como dar esse tipo de notícia para os seus familiares. Confesso que não é nada fácil lidar com este evento, mesmo sendo treinado para isso e reconhecendo-o como parte de um ciclo natural.

Existem vários aspectos dentro do processo de morte que nos assustam, como o sofrimento e a dor que podem estar envolvidos nele, sendo o tratamento dessas condições objetivo de muito estudo e trabalho da área médica. No entanto, outro aspecto que eu gostaria de tratar sobre a morte é a sua associação negativa com a terminalidade.

Novamente, através de uma educação e cultura modernas, tendemos a achar que coisas boas duram muito tempo, sendo que as melhores duram para sempre: a divindade eterna, o amor eterno, a própria imortalidade é vista como um prêmio porque simplesmente não tem fim. Vejam que em todas essas ideias a terminalidade é abominável e a sua negação é uma espécie de "prêmio".

Apesar de muito colorida e romanceada, essa ideia é pouco saudável. No mundo físico em que vivemos, com espaço e tempo limitados, para que algo novo possa surgir é imprescindível que antes algo seja desfeito, ou seja, termine. Em outras palavras, para que algo nasça, outras coisas devem antes morrer. Até por isso que eu escrevi no título "ciclo de morte e nascimento": a morte realmente vem antes!

Dentro do nosso corpo vemos isso acontecendo a todo momento: mesmo entre as crianças, que possuem um organismo em franco desenvolvimento, a morte celular ocorre em grande quantidade, em um processo natural que não desperta nenhum tipo de alarme pois está ocorrendo dentro de um plano maior. Fisiologicamente chamamos esse processo de morte sem causar inflamação ou doença de "apoptose". Nas crianças o número de células que "nascem" é bem maior do que o número das que entram em apoptose e, por isso, no resultado final seus corpos "crescem".

Nos adultos esse processo é contínuo durante toda a vida, na forma de um equilíbrio: as células surgem na mesma proporção das que se desfazem. Já nos idosos o processo se inverte e nós observamos esse "saldo negativo" de renovação celular como o processo de envelhecimento biológico.

Particularmente, acredito que a longevidade tenha mais a ver com a compreensão desse processo, e passar por ele de uma maneira suave, do que tentar impedi-lo de uma forma não-natural, certamente fadada ao fracasso pois não se impede o próprio processo de vida, que tem dentro de si (e se inicia) com a terminalidade da morte.

Então nos meus votos de boa Páscoa fica o desejo de que a compreensão desse processo traga mais leveza ao ciclo de terminar com objetos e eventos que já não encontram o seu lugar na nossa vida, para que novos possam surgir.

Alexandre Martin é médico especialista em acupuntura e com formação em osteopatia e medicina chinesa (xan.martin@gmail.com)

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