A menos de duas semanas do segundo turno das Eleições Gerais deste ano, o debate de propostas e planos de governo dos presidenciáveis deu lugar à briga pelo voto dos mais dos 80% da população brasileira que se declaram cristãos. As discussões que tomaram conta dos noticiários e redes sociais nas últimas semanas envolveram de igrejas católicas e evangélicas, até a maçonaria e o satanismo.
Em Jundiaí, a Igreja Católica afirma que segue a cartilha de orientação política elaborada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) para as eleições deste ano. "Não falamos sobre candidatos durante as missas e nem na homilia. Não se pode usar a igreja para isso, para pedir votos", afirma o padre Adriano Luís Zucculin, responsável pela Comunicação da Diocese de Jundiaí.
Mas foi justamente isso que ocorreu na semana passada. Na quarta-feira (12), dia de Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, o candidato à reeleição presidencial Jair Bolsonaro (PL) causou polêmica ao participar da missa na Basílica de Aparecida. A tentativa de transformar a comemoração em ato de campanha desagradou a Igreja Católica.
Embora Bolsonaro tenha conseguido levar ao local centenas de apoiadores vestidos de verde e amarelo, ele ouviu um belo puxão de orelha dos responsáveis pela celebração. Em nota, a CNBB lamentou neste momento de campanha a "intensificação da exploração da fé e da religião como caminho para angariar votos no segundo turno".
"Momentos especificamente religiosos não podem ser usados por candidatos para apresentarem suas propostas de campanha e demais assuntos relacionados às eleições. Desse modo, a CNBB lamenta e reprova tais ações e comportamentos. A manipulação religiosa sempre desvirtua os valores do Evangelho e tira o foco dos reais problemas que necessitam ser debatidos e enfrentados em nosso Brasil. É fundamental um compromisso autêntico com a verdade e com o Evangelho", diz a nota.
Em meio à polêmica com a vista do presidente, uma notícia falsa circulou pelas redes sociais e aplicativos de mensagens, creditando ao candidato bolsonarista ao governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), uma crítica pesa à Igreja Católica, dizendo que "a CNBB virou um partido político". Logo, Tarcísio publicou um post desmentindo que tivesse escrito o texto.
Antes disso, Bolsonaro ainda teve de lidar com a divulgação de um vídeo antigo em que discursa para maçons. A gravação é a 2018, já que ele diz "não estar candidato a nada". Mas a cena não pegou bem entre os cristãos que apoiam o presidente. Para os católicos, a maçonaria não é compatível com sua fé. E, para os evangélicos, remete ao satanismo.
Também na semana passada, o Padre Zezinho, considerado um dos maiores nomes da música cristã no país, deixou as redes sociais depois de ataques bolsonaristas contra ele, o Papa e bispos. Em um post no Facebook, ele diz que cansou de “abrir espaço para católicos super politizados, irados e insatisfeitos com nossa igreja” e que vai se retirar até o dia 31, um dia após o segundo turno da eleição.
“Depois das ofensas de hoje contra o Papa, contra os bispos e contra mim, com calúnias e palavras de baixo calão, estou fechando esta página até dia 31 de outubro”, escreve em longo desabafo. E continuou: “O triste é que as ofensas são todas de católicos radicais, que preferiram o seu partido político ao catecismo católico... Querem um Brasil direitista ou esquerdista, porque está claro que não aceitam nenhuma pregação moderada que propõe diálogo político, social e ecumênico “.
SATANISMO
Adversário de Bolsonaro na disputa, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) também tem tido de lidar com notícias falsas e intensificar sua posição religiosa. A rede bolsonarista vem propagando a falsa associação entre o ex-presidente e o satanismo.
Ainda no primeiro turno, viralizou o vídeo de um influencer intitulado luciferiano que "previa" a vitória de Lula no primeiro turno - o que não ocorreu. Vicky Vanilla soma quase um milhão de seguidores no TikTok e se descreve como "mestre e líder da Igreja de Lúcifer do Novo Aeon". Ele aparece em frente a uma bandeira do petista e fala sobre uma suposta união de diferentes religiões, de segmentos satanistas e do ocultismo, pelo ex-presidente.
Diante da rápida disseminação da fake news, a assessoria do petista divulgou: "A verdade, como já repetimos antes, é que Lula é cristão, católico, crismado, casado e frequentador da igreja. Não existe relação entre Lula e o satanismo. Quem espalha isso é desonesto e abusa da boa-fé das pessoas".
EVANGÉLICOS
O pastor Clóvis Pontes, presidente do Conselho de Pastores (Conpas) de Jundiaí, afirma que o papel da igreja não deve se misturar com a política. "Mas, diante de um tempo de injustiça, a igreja deve se manifestar como uma voz profética. A gente tem de falar o que pode ser feito para acabar com essa injutiça. Hoje, a injustiça é a corrupção. Todos deveriam estar interessado em acabar com a corrupção", explica.
Apesar disso, o pastor afirma que cada um tem sua liberdade de votar. "A liberdade do voto continua no domínio de cada pessoa. A gente orienta os fieis a analisarem sobre esses aspectos e sobre os valores critãos para definir o voto", enumerando: "Somos contra o aborto, contra a ideologia de gênero, contra a injustiça social, defendemos a família no sentido bíblico. Por isso, a gente apoia quem está falando de princípios e valores que o cristianismo acredita".
Comentários
1 Comentários
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jaques campos 19/10/2022Infelizmente algumas seitas evangélicas se enveredaram para a política, criando partidos políticos, a tal da bancada evangélica. Isto está prejudicando a democracia. São muitos os pastores evangélicos comprometidos com política, sendo que muitos estão envolvidos com corrupção. Exemplos: Silas Malafaia, R.R.Soares, Vardomiro, Edir Macedo, Casal Hernandes e outros, são todos milionários que roubam o povo, além de benesses públicas como isenção de impostos.