Áudios obtidos pela Polícia Civil de Franca revelam conversas atribuídas a Kelly Cristina Queiroz e Ana Laura de Sousa Rosa que indicam suas participações na manutenção do cativeiro onde uma família foi mantida sequestrada em julho deste ano. Em uma das gravações, a mulher demonstra indignação com a liberação temporária das vítimas e afirma que elas poderiam ter permanecido presas em sua própria residência, no Jardim Aeroporto III, em Franca.
“Não tinha que ter soltado elas não, Aninha. Podia deixar elas até aqui na minha casa. Tá doida? Elas vão vazar, mano”, diz um dos áudios analisados pelos investigadores.
As gravações integram o segundo inquérito concluído pela Delegacia de Investigações Gerais (DIG), que aprofundou a apuração sobre o envolvimento da moradora no sequestro de Andresa de Oliveira, viúva do caseiro Milton Prado, das duas filhas dela e de uma recém-nascida.
Segundo o delegado Gabriel Fernando Tomaz Silva, responsável pelo caso, os arquivos digitais contradizem a versão apresentada inicialmente por Kelly, que afirmou desconhecer a utilização da casa como cativeiro.
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Em outro áudio, Kelly orienta uma das envolvidas sobre como trancar o portão da residência. A gravação mostra que ela tinha conhecimento do funcionamento da fechadura e repassava instruções para impedir que as vítimas deixassem o imóvel.
“Amiga, o portão não está trancando porque vocês não estão sabendo trancar. Enfia a chave pelo lado de fora e dá uma rodada para vocês verem. Ou vocês estão enfiando a chave errada. Eu ainda tranquei e destranquei para ver. Vai com cuidado, com calma. A chave é para baixo”, diz a mulher.
As gravações também trazem orientações sobre a alimentação das sequestradas. Em uma delas, a mulher indica que havia arroz e feijão em sua geladeira e sugere que os envolvidos preparassem ovos com pão para as vítimas.
“Tem pão aí, mano, para elas fritarem um ovo, pôr no pão e comer”, afirma.
Para a Polícia Civil, o conjunto de arquivos demonstra que Kelly não apenas sabia da existência do cativeiro, mas também colaborava para a manutenção das vítimas em cárcere privado.
Outro trecho analisado pelos investigadores revela conversas sobre o desaparecimento de Rafael Vitor de Souza Rosa, de 18 anos, e Guilherme Henrique Melo da Cruz, de 22. Ana Laura de Sousa Rosa é tia de Rafael Vitor. Os dois foram posteriormente encontrados mortos em Sacramento (MG).
Nas gravações, há referências a tentativas de contato com pessoas ligadas aos desaparecidos e à expectativa de que fosse realizado um chamado “tabuleiro das ideias”, expressão mencionada durante a conversa.
“Fomos atrás dos irmãos para ver se... Só que os irmãos bloquearam. Falaram que iriam montar o tabuleiro, das ideias lá que iam fazer. E até agora não montou nada, porque era até sexta. Agora, o que eu vou ter que fazer? Eu vou ter que ir na delegacia, né?”, diz um dos áudios.
Em outra gravação, são mencionadas informações atribuídas às mulheres que estavam no cativeiro sobre o possível destino dos dois homens.
“Mas a menina falou, ela não aguentou, não. Só não falou que estão mortos. Falaram que eles guardaram eles. Deu para um cara guardar eles”, diz o trecho.
Na sequência, a conversa menciona a suspeita de que Maria Isabel teria admitido que os dois foram mortos e que os corpos teriam sido escondidos, embora o local não tivesse sido informado.
“Mas aí elas falaram que realmente matou, pediu para os caras matarem e guardarem eles, mas elas não falaram aonde? Que loucura é essa? E vocês ainda soltaram elas, mano”, diz a gravação.
Em entrevista concedida à imprensa em meados de julho, após o resgate das vítimas, Kelly afirmou que morava na residência, mas estava fora do imóvel havia aproximadamente 20 dias. Segundo ela, permanecia na casa da mãe por motivos de saúde e para acompanhar os filhos durante as férias.
A mulher também negou conhecer as pessoas envolvidas no sequestro e disse que soube do caso por meio de familiares e das reportagens publicadas sobre o resgate.
“Eu nem estou sabendo, entendeu? Foi quando a minha filha abriu o celular e viu as reportagens. Fiquei sabendo tudo por reportagem”, afirmou na ocasião.
Kelly também relatou que, cerca de 15 dias antes do resgate, recebeu uma ligação de um vizinho informando que havia homens estranhos dentro da residência. Ela disse que foi até o endereço, verificou o imóvel e não encontrou nada.
“Eu fui até lá, olhei a casa, não tinha nada. Entendeu? (...) Então eu peguei e fui lá ver, mas não tinha nada. Retornei embora para a casa da minha mãe”, declarou.
Durante a entrevista, ela afirmou ainda que havia procurado a Polícia Civil para prestar esclarecimentos, mas não teria sido ouvida.
“Eu vim aqui para ser ouvida, né? Mas ninguém quis me ouvir, não. Falou que não tinha necessidade”, disse.
A versão foi contestada pelo delegado Gabriel Fernando Tomaz Silva. Segundo ele, Kelly compareceu à DIG acompanhada de uma advogada somente um dia depois do encerramento formal do primeiro inquérito e não quis prestar depoimento durante a investigação inicial.
“A versão mentirosa que a Kelly deu para a imprensa chamou a atenção. Para começar, ela não quis ser ouvida no inquérito policial. Ela veio aqui acompanhada da advogada já depois do encerramento do inquérito e ainda disse que a Polícia Civil se recusou a ouvir ela. Isso não é verdade”, declarou.
A participação de Kelly Cristina já era investigada desde o resgate das vítimas, em 7 de julho. Na ocasião, os policiais encontraram a residência trancada e precisaram arrombar o imóvel para retirar as mulheres.
Inicialmente, a moradora afirmou que estava afastada da casa por motivos de saúde e desconhecia que o endereço estivesse sendo utilizado como cativeiro. Ela chegou a conceder entrevista à imprensa, quando levantou a possibilidade de o imóvel ter sido invadido.
A partir da análise de áudios, fotografias e vídeos, porém, a DIG reuniu elementos que, segundo o delegado, demonstram uma atuação direta da investigada. Entre os arquivos também estão imagens das chaves da residência e um vídeo em que ela mostra o funcionamento da fechadura do portão.
Kelly já havia sido indiciada no primeiro inquérito por associação criminosa e sequestro. Com a conclusão da investigação complementar, a identificação criminal permanece a mesma, e os dois procedimentos serão reunidos para tramitação conjunta.
A DIG também identificou outro homem que teria auxiliado na manutenção das vítimas em cárcere, recebendo orientações sobre como trancar e destrancar o portão e levando alimentos à residência. Ele deverá ser indiciado pelos mesmos crimes.