William Ferreira Cardozo, de 40 anos, foi indiciado por feminicídio no inquérito que apura a morte da professora e orientadora educacional Tatiane Cintra dos Santos Cardozo, de 42 anos, em Franca. Ele prestou depoimento no dia 10 de setembro, na CPJ (Central de Polícia Judiciária). Na ocasião, segundo o delegado responsável pelo caso, Davi Abmael Davi, não foi solicitada a prisão do investigado. O inquérito foi concluído e encaminhado ao Fórum de Franca.
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A família de Tatiane, no entanto, afirma que ainda existem questões que precisam ser esclarecidas. Em entrevista ao GCN, as irmãs Luciana Aparecida Cintra e Fabiana Cintra e a sobrinha Ana Rita Santos apresentaram novos elementos que estariam relacionados ao caso, entre eles áudios e imagens que teriam sido enviados por Tatiane a uma amiga antes da morte.
Também foram disponibilizados à reportagem documentos que registram pesquisas feitas no celular atribuído a William. Parte dessas informações consta de material produzido pela Polícia Civil durante a investigação.
Áudios relatam agressões
Entre os materiais entregues pela família estão áudios que Tatiane teria enviado a uma amiga antes de morrer.
Nas gravações, a professora relataria ter sido agredida por William e descreveria uma suposta pressão no pescoço durante uma discussão envolvendo a outra mulher com quem ele manteria relacionamento.
“Eu sinto a dor do apertão do William, que me apertou muito”, afirma Tatiane em um dos áudios.
Na sequência, ela relataria que teria sido apertada pelo pescoço e que teria chegado a sentir dificuldade para respirar. “Ele apertou no pescoço, eu quase fiquei sufocada”, diz no material.
Em outro trecho, Tatiane relata à amiga uma fala que atribui a William. Segundo ela, durante uma conversa anterior, o marido teria mencionado a possibilidade de sufocar a outra mulher enquanto ela dormia e posteriormente alegar que ela havia passado mal durante a noite.
“Seria tão bem mais fácil ele pegar os travesseiros e sufocá-la. Depois era só falar que ela passou mal de noite”, afirma Tatiane no áudio, reproduzindo o que diz ter ouvido do marido.
O conteúdo foi apresentado pela família como parte dos elementos que, segundo os parentes, ajudariam a demonstrar o contexto da relação entre Tatiane e William antes da morte.
Imagem mostra lesão no pescoço
Além dos áudios, a família disponibilizou um print de uma suposta conversa em que Tatiane teria enviado a uma amiga uma imagem mostrando uma lesão na região do pescoço.
Segundo os familiares, o registro foi feito antes da morte da professora e estaria relacionado às agressões relatadas por ela.
Ana Rita afirmou que a família só tomou conhecimento de possíveis agressões sofridas por Tatiane depois da morte. “Nós não sabíamos que ela sofria essas agressões”, disse.
Segundo ela, Tatiane passou a usar roupas que cobriam mais o corpo, inclusive em períodos de calor, mas os familiares não compreenderam, à época, o motivo da mudança.
Pesquisas por veneno aparecem em documento da polícia
Um dos elementos mais recentes apresentados pela família consta de documentação produzida pela Polícia Civil.
Segundo o documento assinado pelo delegado Davi Abmael Davi, foram identificadas pesquisas realizadas pelo aparelho atribuído a William no Google no dia 19 de abril de 2025, um dia antes da morte de Tatiane.
O relatório registra buscas por termos como “produto do dia a dia que tem perigo de morte”, “qual produto do dia a dia é perigoso” e “onde comprar veneno”.
O documento também aponta pesquisas realizadas em 8 de abril, cerca de duas semanas antes da morte.
Entre os termos pesquisados estavam “qual combinação de remédios para se suicidar”, além de buscas sobre a interação entre álcool e medicamentos, como dipirona e amoxicilina, e informações sobre a planta conhecida como “comigo-ninguém-pode”.
O documento integra o material produzido pela Polícia Civil durante a investigação e foi assinado digitalmente pelo delegado responsável pelo caso em 23 de setembro de 2026.
Família questiona sequência de datas
Para os familiares, a cronologia das pesquisas é um dos pontos que aumentaram as dúvidas sobre a morte de Tatiane.
Fabiana afirma que as primeiras buscas ocorreram em 8 de abril. No dia seguinte, durante uma viagem da família a Barretos, Tatiane teria começado a passar mal.
Segundo o relato da família, William teria retornado antes para Franca, enquanto Tatiane teria permanecido na viagem.
“Minha irmã começou a dar sinal de passar mal no dia 9 numa viagem que nós tivemos. Ele deixou minha irmã na viagem sozinha e veio embora na frente”, afirmou Fabiana.
De acordo com os familiares, as pesquisas teriam continuado com novos registros no dia 19 de abril. No dia seguinte, 20 de abril, Tatiane foi encontrada morta em casa.
Mensagem cita o dia 20
Outro material apresentado pela família é um print de uma suposta conversa entre Tatiane e William.
Segundo os familiares, na mensagem, o investigado teria afirmado que resolveria, até o dia 20, uma situação relacionada à mulher com quem mantinha um relacionamento.
A data chamou a atenção da família porque Tatiane morreu justamente em 20 de abril de 2025.
“Minha irmã faleceu no dia 20 e tinha uma mensagem dele falando que dia 20 ele ia dar um jeito”, afirmou Fabiana.
O significado da mensagem e seu contexto fazem parte dos elementos apresentados pela família. O conteúdo integral da investigação permanece sob sigilo judicial.
Morte por broncoaspiração é questionada
Tatiane foi encontrada morta em casa no dia 20 de abril de 2025, horas depois de participar de um churrasco em família.
O laudo inicial apontou morte natural e broncoaspiração. Diante das suspeitas apresentadas pela família, a Justiça autorizou a exumação do corpo, realizada posteriormente para novos exames.
Segundo as informações já apresentadas pela investigação, os exames da exumação não identificaram substâncias que indicassem envenenamento.
A família, porém, questiona o que teria provocado a broncoaspiração.
“A Tatiane broncoaspirou. Mas, o porquê? O que levou a minha irmã a broncoaspirar? Porque ela não tinha indícios de doença antes da morte dela. Minha irmã era saudável, totalmente saudável”, afirmou Fabiana.
Ela também questionou a ausência de atendimento imediato.
“Broncoaspiração causa barulho. Ela não foi acudida. Ela não foi socorrida”, disse.
Relação era marcada por conflitos
Os familiares também relembraram o histórico do relacionamento entre Tatiane e William.
Segundo eles, o casal teria se separado depois que Tatiane teria descoberto uma relação extraconjugal do marido com uma mulher próxima à família. William teria se casado posteriormente com essa mulher.
Em 2024, Tatiane e William retomaram o relacionamento. O casal voltou a se casar em outubro daquele ano, aproximadamente seis meses antes da morte da professora.
A família afirma que, mesmo após a retomada da união, William teria continuado mantendo contato com a antiga companheira.
“Ele prometeu pra minha irmã que ele era só que não largou nada. E nesse meio tempo minha irmã começou a brigar com ele”, relatou uma das familiares.
Família também cita situação dos filhos
As familiares relataram ainda mudanças na guarda dos filhos de Tatiane após a morte.
Inicialmente, segundo Fabiana, as crianças permaneciam uma semana com o pai e outra com familiares maternos. A situação teria mudado depois que a criança mais nova teria passado a retornar machucada.
“Principalmente a criança menor, quando tinha o dia que a gente tinha que devolver pro pai, a criança não queria ir. Depois, ela começou a aparecer pra nós machucada”, afirmou.
De acordo com a família, em uma das ocasiões foi registrado boletim de ocorrência e realizado exame de corpo de delito. A criança teria relatado às autoridades que sofria agressões praticadas pela companheira do pai.
Ainda segundo a família, a guarda passou então, temporariamente, para uma sobrinha.
Fabiana afirma que o comportamento da criança também é motivo de preocupação para os familiares. “A criança mesma falou que não tinha vontade de ficar com o pai”, disse.
Defesa nega responsabilidade
A defesa de William, por meio da advogada Letycia Antinori, afirmou que ele compareceu à CPJ para apresentar sua versão e demonstrar sua inocência.
“William veio trazer os fatos, a sua versão de tudo que aconteceu e demonstrar a sua inocência”, afirmou a advogada.
Segundo a defesa, a causa da morte apontada pelo SVO (Serviço de Verificação de Óbito) foi broncoaspiração.
A advogada também informou que o relatório da investigação está sob sigilo judicial e, por isso, não pôde comentar detalhes do procedimento.
“Tudo que consta no relatório de investigação está sigiloso, já foi determinado sigilo pelo juiz da Vara do Júri aqui de Franca, então eu não posso mencionar nenhum conteúdo que é citado durante o processo”, disse.
O delegado Davi Abmael Davi informou que o inquérito foi concluído e encaminhado à Justiça. Segundo ele, a investigação reuniu indícios de que William seria responsável pela morte, mas não haveria, neste momento, elementos suficientes para justificar um pedido de prisão.
William responde ao processo em liberdade.
“A Tatiana era minha irmãzinha”
Para a família, o indiciamento representa uma nova etapa na busca por esclarecimentos sobre a morte da professora.
Luciana descreveu Tatiane como uma mulher dedicada à família e à profissão.
“A Tatiana era mãe, era filha, professora, amiga e companheira. Nas horas que a gente precisava, ela sentava ali. A Tatiana era uma pessoa, pra mim, era a minha irmãzinha caçula, maravilhosa”, afirmou.
Fabiana disse que a família espera que a investigação consiga esclarecer as circunstâncias da morte.
“Saudade vai ficar. Não traz a minha irmã de volta. Mas, pelo menos, a gente ameniza a dor da família, da minha mãe, do meu pai, que está sofrendo demais. Dos filhos da minha irmã”, finalizou.
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