OPINIÃO

Efeito rebote


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Eu ouvi muito meus mais velhos suspirarem e dizerem: “no meu tempo…” Hoje, eu sigo na mesma caminhada, encontrando-me na posição de quem olha para trás e resgata frases e gestos que parecem perdidos na poeira.

No meu tempo, em especial aqui em Jundiaí (SP), os homens cumprimentavam as mulheres com um sonoro “ó”. Hoje, tragicamente, as agridem. Entre os homens, bastava um franco e cortês “oi”. Lembro-me de quando os senhores que usavam chapéu, boina ou boné, ao passarem defronte a igrejas católicas, levantavam a cobertura e faziam o sinal da cruz. Hoje, apedrejam.

Naquele tempo, escrevíamos com canetas tinteiro. Hoje, muitos nem sabem o que é isso! Máquinas de escrever, papel carbono, mimeógrafo, fax, então!!!; e por ai vai. E, por falar em caneta tinteiro, dias recentes, em uma papelaria, indaguei se tinham tinta para a tal caneta. Tive a impressão de que estava procurando por um “disco voador”, dada a expressão de espanto da funcionária que me atendia.

O que causa estranheza e até perplexidade, pois, apesar do ápice da informação e da educação formal, o que se observa nas ruas e nas redes é um fenômeno inverso: as pessoas parecem ter “emburrecido” e se tornado assustadoramente “embrutecidas”. O cotidiano é manchado pelo ódio do feminicídio; pela intolerância religiosa; pela violência no trânsito; pelo racismo estrutural e estruturante; pela discriminação de gênero, idade, etnia orientação sexual, entre outros pontos da diversidade.

Até mesmo as instituições e poderes da República (Executivo, Legislativo e Judiciário) enfrentam essa onda de agressividade. O resultado é o medo coletivo na medida em que passamos a agir, falar e nos manifestar com cautela inimaginável no passado e com agressividade injustificável noutra vertente.

Enquanto advogado e observador do comportamento humano, concluo que sofremos severo “efeito rebote”. A tecnologia abundante deveria ter refinado posturas e elevado o nível de debate público. Contudo, o “tiro saiu pela culatra”, pois a facilidade da era digital gerou uma ilusão de sabedoria que, na verdade, camufla a perda da empatia e da civilidade. Olhar para o “meu tempo” não é mero saudosismo: é a constatação de que, na pressa de avançar ao futuro, a humanidade deixou para trás a própria educação, dignidade e respeito ao ser humano propriamente dito.

Até gostaria de não tratar desse assunto, mas não há outra maneira, senão provocar reflexão, vez que atribuo a dois setores da vida humana quais sejam: educação formal e judiciário. A educação tem o dever de transmitir conhecimento de bom nível sem discriminações (gênero, etnia, religião, idade, origem...) e judiciário o de aplicar a lei divorciada dessas mesmas discriminações. Aqui, tomo como exemplo o recente julgamento do homicídio do menino Henry Borel (Rio de Janeiro), no qual a mãe foi “contemplada” com “perdão judicial”, lembrando de um caso semelhante em que o marido também fora condenado há mais de 40 anos de reclusão e a mãe a 22 anos, e estão presos. Qual a diferença? Impressionante, mas a mãe condenada é negra.

Eginaldo Honório é advogado.

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