No mundo, aproximadamente 2,64 bilhões de pessoas, ou seja, cerca de 32% da população, são cristãs. Dentre essas, há 1,3 bilhão de católicos, 900 milhões de evangélicos, 200 milhões de ortodoxos. Em nosso país são 180 milhões, o que corresponde a 85% dos brasileiros. De forma mais ou menos religiosa, e em alguns casos até mesmo profana, todos conhecem o significado da Quaresma, que abrange os quarenta dias que vão da Quarta-feira de Cinzas à Quinta-feira Santa. O período, de preparação para a Páscoa na Igreja Católica, simboliza os 40 dias que Jesus passou no deserto.
É tempo de refletir sobre a finitude humana, de pensar que somos cinzas: ‘memento homo quia pulvis es et in pulveram reverteris’, diz o celebrante ao abrir o tempo quaresmal. Mas ao fechá-lo ele também diz que é tempo de um desmentido que traz em si frescor revigorante: somos mesmo pó, verdade incontornável, mas pó destinado a brilhar. Porque a Páscoa, a maior festa do Cristianismo, incluindo o Natal, é, por definição, o instante em que na linearidade da cronologia humana do Ocidente, marcada até então por finais definitivos e lutos intermináveis, esbarrou-se em uma pedra removida. Antes dela, porém, houve uma excruciante Via Crucis, trajeto que passou a funcionar, para além do rito religioso, como um arquétipo universal da jornada humana.
Cada uma das quatorze estações dessa via ecoa as quedas, os encontros e os fardos que carregamos em nossa própria existência. Aplicar a jornada de Cristo ao cotidiano é transformar o sofrimento isolado em um caminho de propósito e resiliência. A via dolorosa pode ser uma ferramenta de transcendência ao nos ensinar, por exemplo, que o "calvário" de uma segunda-feira difícil ou de uma perda dolorosa não é o destino final. O caminho da cruz termina no sepulcro, mas a história cristã — e a vida humana resiliente — só ganha sentido na Ressurreição. Viver a Via Crucis todos os dias é entender que cada dor enfrentada com coragem é semente de algo maior que está por vir. Como disse no século XVII o mestre da retórica, Padre Antônio Vieira, num sermão de Sábado de Aleluia, "a vida é um dia que se acaba, a morte é uma noite que começa; mas a ressurreição é uma manhã que não tem tarde."
No curso de Letras aprendi a gostar de Vieira (1608-1697), cuja importância transcendeu o tempo devido à sua atuação multifacetada como sacerdote da Companhia de Jesus, orador sacro, conselheiro real e defensor dos direitos humanos no contexto da nossa colonização. Nascido em Portugal e criado no Brasil, utilizou sua genialidade retórica não apenas para evangelizar, mas para intervir nas questões sociais e políticas mais urgentes do século XVII. Em seus sermões, ele não apenas pregou a fé; também teceu críticas profundas à sociedade e ao próprio clero, defendendo a clareza e a força da palavra contra o estilo rebuscado e vazio de seus contemporâneos. Continua atual, seja pela maestria técnica de sua escrita — reconhecida como um pilar da prosa em nosso idioma —, seja pela ousadia em enfrentar os poderes estabelecidos na defesa da justiça.
Por muito tempo depois da universidade segui lendo seus extraordinários sermões, peças literárias de imenso valor estilístico, estético e histórico, cuja atualidade se mantém porque nelas se encontram questões que nos fazem refletir. Assim, no Sermão da Quinta Dominga de Páscoa, que reli por esses dias, reencontrei frases que renovaram minha admiração pelo estilo daquele a quem Fernando Pessoa chamou de ‘imperador da Língua Portuguesa’. Destaco uma: "Morrer não é acabar, é mudar de lugar; não é perecer, é florescer."
Aliás, a natureza, em sua muda mas loquaz sabedoria, pregou a ressurreição muito antes de qualquer texto sagrado aparecer sobre a face do planeta. Ela ensinou e continua ensinando silenciosamente que toda semente precisa "morrer" no escuro da terra para que a árvore ganhe o céu. Nós, humanos, religiosos ou não, costumamos resistir à escuridão. A bem da verdade, queremos a luz sem o incômodo do casulo, o sucesso sem o desastre do fracasso, a cura sem a marca da cicatriz. Se crentes, esquecemos que as feridas de Cristo permaneceram nele mesmo após a Ressurreição. Elas não sumiram; foram transfiguradas. Ao lembrar esse episódio, motivo para muita arte pictórica barroca, Vieira enfatizou a persistência da esperança porque "onde há maior perigo, ali há maior socorro; onde há maior desamparo, ali há maior presença."
Celebrar a Páscoa em 2026 é, acima de tudo, um ato de resistência contra a hipocrisia. Conflitos armados, neste 2026 beirando os 140 ao redor do mundo, são uma característica que define o nosso tempo. Em todos os continentes as normas e os limites que deveriam proteger os civis na guerra estão sendo esticados, ignorados ou desmantelados. Atos bélicos se alastram, duram o que parece uma eternidade, tornam-se mais complexos, violentos, letais. As pessoas para quem o Direito Internacional Humanitário existe são as mais desprotegidas e as que mais sofrem: pobres, mulheres, crianças, idosos, deficientes. Enfim, em um mundo que parece se especializar em fabricar bombas, sepulcros e muros, acreditar na vida que brota do impossível é quase uma revolução.
Haverá chocolates e rituais neste domingo, sabemos e compartilhamos. Mas acima deles, vamos trabalhar, cada um a seu modo, crendo na "manhã que não tem tarde" de que falava o jesuíta, entendendo que o amor, quando levado às últimas consequências, torna-se impermeável à morte. Sejamos um pouco Cirineus, ajudando a carregar as cruzes pesadas dos que nos são próximos; e um pouco Verônicas, enxugando com gentileza e compreensão as lágrimas dos que se aproximam sofrendo.
Que nesta Páscoa consigamos, como Vieira sugeriu, olhar para o fim não como uma queda, mas como um salto. Pois, se a morte é o inverno da alma, a Ressurreição é a certeza de que a primavera já está, secretamente, trabalhando debaixo do chão.
Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras
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