NOSSAS LETRAS

Amor

Lembro-me nitidamente de seus olhos escuros e muito brilhantes, onde duas lágrimas tremeluziram antes de cair. Leia a crônica de Sonia Machiavelli.

Por Sonia Machiavelli | 11/05/2024 | Tempo de leitura: 4 min
Especial para o GCN/Sampi Franca

Grandes dálias alaranjadas competiam com o Sol da manhã de um maio longínquo. Melindres em cascata verde-claro despencavam de um xaxim. Vistosas folhas verde-escuro de comigo-ninguém-pode exibiam irregulares pintas brancas. E o bulbo da amarilis já não era mais apenas promessa de púrpura quando o inverno chegasse. A necessidade de cor para uma vida que começava era suprida nos canteiros daquele jardim/quintal.

Para outras necessidades básicas, havia um chuchuzeiro que se debruçava no muro alto com suas ramas longas, brotos espiralados, florinhas miúdas e brancas anunciando frutos sazonais. Tomateiros com tomates verdes, verdolengos e vermelhos, nos pés sustentados por estacas de bambus secos onde folhas ásperas escondiam lagartas assustadoras. Pés-de-milho esguios com suas espigas de cabelos loiros e vermelhos, algumas colhidas às vezes antes do tempo para se transformarem em bonecas envoltas em fitas e retalhos coloridos surrupiados da gaveta de uma máquina de costura.

Afastado desse espaço vegetal, num ângulo ensombrecido, monte de pedras irregulares servia de passarela para pequeninas e ágeis lagartixas, lesmas que deixavam caminho prateado ao arrastarem suas casas-caracóis, formigas miúdas que buscavam algum resíduo doce. Quando eu não queria ser vista, as pedras me serviam de esconderijo. Foi ali que me escondi por algumas horas, todas as tardes de um certo maio, acompanhando com o ouvido o barulho da máquina que por aqueles dias estava sendo muito exigida. Se havia ruído, eu ficava tranquila, não seria descoberta.

Firmava-me então no meu propósito de cortar um pedaço de cartolina branca, na medida de um retângulo de 15x10 cm, dobrá-lo ao meio e depois picotar os lados num efeito que me desafiava e encantava. Não possuindo a tesoura apropriada, tinha desenhado ziguezagues a lápis e depois ia movimentando a tesoura simples na subida e na descida, como nos havia orientado a professora do terceiro ano. Essa atividade me tomou uns três dias, pois quando o barulho da máquina parava, saía de meu canto porque tinha certeza de que minha mãe surgiria no topo da escada para me chamar. Queria saber o que eu andava fazendo. Respondia que apenas olhava as lagartixas, as lesmas e as formigas. Ela parecia acreditar.

Picotado o cartão, a etapa seguinte era encontrar em velhas revistas alguma imagem colorida para colar na frente do cartão. “Na página de rosto”, tinha dito dona Brisabela. Achei interessante a expressão e a incorporei ao meu vocabulário. Depois de folhear algumas publicações, descobri um ramalhete do jeito que queria. Arranquei a página e comecei a recortar as extremidades do arranjo com muito cuidado. Isso me demandou mais dois dias de trabalho. Mas valeu a pena. A professora elogiou o achado em “papel couché”. Amei esta outra expressão até então desconhecida para definir o papel encorpado e brilhante que se destacava do comum dos impressos em determinadas páginas das revistas, em geral as que tinham publicidade. Havia encontrado a imagem florida num anúncio do pó-de-arroz Cashemere Bouquet.

Colado o recorte na face do cartão picotado, restava escrever a mensagem para a homenageada daquele segundo domingo de maio. Escrevemos no caderno, dona Brisa corrigiu, passamos a limpo na terceira página. A minha frase dizia: “Para minha mãezinha, com amor”. Já estava lindo daquele jeito. Mas a professora tinha uma surpresa para nós: uma gotinha de perfume na página dois, que ela aspergia inclinando o vidrinho azul-turquesa. Depois explicou: “quando a mãe de vocês abrir, vai sentir o perfume.” Que era de rosas, acusou meu olfato e reteve para sempre a minha memória.

Durante semanas havia conseguido juntar uns trocados tendo em vista comprar um presentinho para juntar ao cartão. Era muito pouco, mas deu para comprar uma saboneteira de plástico cor-de-rosa na livraria do Seu Gomes, defronte da escola onde eu estudava- o Grupo Escolar “Coronel Francisco Martins”.

Chegado o domingo, acordei bem cedo e quando vi movimento de minha mãe na cozinha, pulei da cama, peguei o cartão cheiroso e a saboneteira embalada com zelo. Cheguei bem pertinho dela e roçando sua saia falei: “Feliz Dia das Mães!” Ela pegou os presentes, olhou ambos com interesse, cheirou o cartão, falou alguma coisa sobre a saboneteira e depois, me olhando nos olhos, disse: “Obrigada, minha filha!” Lembro-me nitidamente de seus olhos escuros e muito brilhantes, onde duas lágrimas tremeluziram antes de cair.

Havia tanto Amor nos cercando naquele instante que apesar do lugar, escurecido pelo bolor das paredes e pelo picumã do fogão a lenha, tudo me pareceu intensamente iluminado, colorido, perfumado. E assim a cena se gravou para sempre em meu coração.

Sonia Machiavelli é professora, jornalista, escritora; membro da Academia Francana de Letras

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