Transformada em pó após demolição, a antiga sede do Hotel Marconi abrigou por mais de cem anos um sem número de hóspedes e histórias que permanecem nas memórias de antigos donos, em propagandas amareladas e documentos redigidos à mão e máquinas de escrever preservados no Arquivo Histórico da cidade. De acordo com dados armazenados lá, o hotel é mencionado em almanaques da cidade desde 1910, mas, por falta de documentos sobre sua criação, não foi possível à reportagem precisar a data em que surgiu, na rua Couto Magalhães.
“Esse hotel foi erguido pelo meu avô, Enrico Augusto Angiolo Marconi, anos depois de ter vindo da Itália para o Brasil”, disse a professora de música Lúcia Garcetti. De acordo com ela, o avô chegou ao país em busca de novas oportunidades e fundou, antes do hotel, uma pequena pensão na rua do Comércio, que atendia, principalmente, boiadeiros.
“Quando a situação de vida melhorou, ele foi buscar minha avó, Paschoalina del Guerra Marconi, e os dois primeiros filhos, dos sete que viriam a ter, na Itália. Depois disso é que ele construiu o Hotel Marconi”, afirmou Lúcia.
Dos tempos áureos do hotel, a professora guarda uma memória afetiva bem presente, capaz de provocar embargo na voz. “Minha família construiu suas casas e se estabeleceu em torno daquele hotel: era o quarteirão dos Marconi. A gente almoçava ali e tenho muitas recordações de saraus que fazíamos à beira do piano que ficava na sala de visitas. É, inclusive, o piano que tenho em minha sala de aula, hoje.” Ainda de acordo com ela, o hino da Francana foi criado no hotel, neste instrumento. A família Marconi esteve à frente do próprio hotel até 1936, quando a administração foi passada adiante.
“Quando meu avô morreu, em 1930, minha avó e minha mãe tocaram o negócio mas, em 1936, as coisas ficam muito difíceis e não sei como as coisas correram até 1951, quando o hotel foi vendido aos Haddad.”
Os Haddad
Aos 82 anos, o advogado e professor aposentado Ibrahim Haddad ainda se lembra com clareza de muitas histórias vividas no Hotel Marconi. De acordo com ele, por volta de 1936, os Marconi arrendaram o negócio para uma senhora chamada Jovina Fernandes. Ela gerenciou o local por um tempo até que seu pai, Elias Haddad, assumiu o arrendamento. “Foi em 1950 ou 1951 que meu pai comprou o hotel, de fato. Foram anos muito bons”, disse Ibrahim.
“Muitas histórias da minha adolescência aconteceram naquele hotel, que era ‘feinho’ por fora e uma ‘tetéia’ por dentro. Ele tinha dois andares, 26 quartos, um corredor muito grande e um gradil de ferro na parte de cima”, relembrou. “No quarto 14, aconteciam as reuniões do Clube 14. Era uma turminha, da qual eu fazia parte, que levava uma vitrola grande para o quarto a fim de ouvir os grandes músicos italianos e brasileiros da época.”
Ainda segundo ele, o hotel tinha fama de boa mesa e as feijoadas servidas periodicamente eram um evento na cidade. “O pessoal se reunia e era uma festa. Uma vez, fizeram um campeonato para ver quem comia mais a feijoada. Foi uma farra. Escrevi contos que falam sobre as histórias que aconteceram ali... O espaço que você tem para escrever no jornal não é suficiente para contar tudo.”
Com a morte do patriarca e também de dois dos quatro irmãos Haddad, Ibrahim e a irmã Cibélia herdaram o Hotel. Ela e a mulher do professor assumiram o gerenciamento até a morte de Cibélia.
“No fim, os filhos da minha irmã e os meus assumiram o negócio, mas ele já não era mais viável. A construção era antiga, tínhamos poucos quartos e nenhum estacionamento, o que não atende mais aos padrões que são exigidos para os hotéis. Reformar seria um investimento muito caro e a família decidiu vender.” O hotel deixou de pertencer aos Haddad em janeiro deste ano.
O futuro
Atual dona do espaço onde existiu o Hotel Marconi, a empresária Gisele Bedo Porfirio, proprietária da 100% Bijuterias, afirma que o destino do local ainda não está totalmente definido. De acordo com ela, a única certeza é que ele será utilizado para a realização de um sonho. “Estou projetando ainda o que vou fazer. Tenho a minha loja de bijuterias, mas sempre tive vontade de trabalhar com bolos, confeitaria”, afirmou.
“Tivemos que demolir porque não pude, inicialmente, comprar sozinha o prédio e não dava para fazer a documentação de venda desse modo, dividindo o prédio. Depois, me esforcei e consegui comprar a outra parte, porque eu teria preferência caso o outro dono quisesse vender. Estou muito feliz e aliviada por poder sair do aluguel.”
Ainda sobre o prédio, um dos planos para o novo estabelecimento é transformar a área do térreo em um estacionamento.
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