Soldado da paz

O Exército Brasileiro, com seus boinas-azuis, comanda a Minustah (Missão das Nações Unidas de estabilização do Haiti) há dois anos.

22/07/2006 | Tempo de leitura: 8 min

soldado da paz
soldado da paz
<p>O Exército Brasileiro, com seus boinas-azuis, comanda a Minustah (Missão das Nações Unidas de estabilização do Haiti) há dois anos. Cada contingente, formado geralmente por mais de mil soldados, permanece no país caribenho por seis meses. O último grupo, que voltou em maio, reuniu soldados de São Paulo. </p> <p>Entre eles o sargento francano Wankarlo de Paula Lima, 27, que era responsável por um grupo de soldados. Lima conta como foi a experiência de seis meses naquele país, que para ele foi um grande treinamento, e também como foi a preparação antes da missão. </p> <p><br />A onda de violência no Haiti teve início depois que Jean-Bertrand Aristide venceu as eleições para presidente em 2001. Como menos de 10% da população votou, os candidatos que faziam oposição a Aristide não concordaram com o resultado da eleição. </p> <p><br />Aristide chegou a destituir todo seu ministério, mas não deixou a oposição satisfeita. Enfrentamentos armados entre partidários da oposição e grupos leais ao pre-sidente levaram o país a um ciclo de violência sem precedentes. Aristide fugiu para a África do Sul. Mas a violência continuou. </p> <p><br />O Brasil assumiu o comando da Missão de Paz, enviada pela ONU, no país por ter o maior contingente, com o apoio de soldados de países como Argentina, Canadá, China, Chile, Estados Unidos, Portugal, Jordânia, entre outros. Atuam hoje no Haiti cerca de 7,2 mil soldados enviados pela ONU.</p> <p><strong>Comércio da Franca - Como é feita a seleção dos soldados que vão para a Missão de Paz?<br />Wankarlo de Paula Lima</strong> - Como já se sabe com antecedência de qual Estado será formado o contingente, é possível montar um grupo de voluntários e a partir daí fazer a seleção e todos os testes de aptidão física. </p> <p><strong>Comércio - O trabalho é realmente voluntário ou tem uma compensação financeira?<br />Wankarlo</strong> - Tem uma compensação, que, na verdade, é uma gratificação da ONU, que passa o dinheiro para o Exército Brasileiro, que repassa para os soldados. A permanência de seis meses no Haiti tem uma premiação de 2.400 dólares (cerca de R$ 5.850), mais o salário normal.</p> <p><strong>Comércio - Quanto tempo dura a preparação dos soldados antes da viagem para o Haiti?<br />Wankarlo</strong> - A relação dos voluntários foi pedida em maio do ano passado e em junho já tinha os pré-selecionados que passaram a fazer o teste físico, que durou até poucos dias antes da viagem em novembro. </p> <p><strong>Comércio - Como era o local onde vocês ficavam?<br />Wankarlo -</strong> A nossa base ficava em uma universidade desativada. Ficamos em apartamentos que eram usados por estudantes. No local, deixávamos nosso material e era também onde fazíamos nossas refeições e higienização. Mas o maior tempo ficávamos nas ruas. No fim do ano, essa universidade será reativada e os soldados brasileiros que estão lá hoje terão que sair. </p> <p><strong>Comércio - E como era a rotina de trabalho?<br />Wankarlo </strong>- O grupo era formado por quatro pelotões e cada um tinha três GCs (grupos de combate), sendo que cada um é comandado por um sargento, como eu, que fica nos urutus (tanques blindados). A rotina girava em torno de quatro dias. No primeiro dia, a gente fazia a segurança no Palácio Nacional, Casa do Ministro e Forte Nacional, que era o antigo presídio que tinha lá. Os grupos iam se revezando. No segundo dia, os soldados iam para uma favela de nome Magnólia, que tinha uma rua bastante perigosa. A nossa missão, que durava 24 horas, era acalmar e tranqüilizar os moradores. No terceiro dia, voltávamos para a nossa base, onde ficávamos como se fosse uma força de reação. Se acontecesse alguma coisa éramos acionados para os pontos onde era registrado o problema. No quarto dia, fazíamos patrulhas, principalmente nas favelas, com os urutus.</p> <p><strong>Comércio - E como foi quando vocês entraram na Cité Soleil (maior e mais perigosa favela da capital, Porto Príncipe)?<br />Wankarlo</strong> - Entramos no último mês na Cité Soleil, que antes era área do Exército Jordaniano. Há sempre o revezamento dos soldados e a nossa missão na favela só começou no fim do período de nossa permanência no país. </p> <p><strong>Comércio - Em julho de 2005 houve denúncias de que o Exército Jordaniano teria praticado um massacre ao matar 60 pessoas sem distinguir entre quem estava armado ou não. Como o Exército Brasileiro foi recebido ao entrar na favela? <br />Wankarlo</strong> - São poucos os moradores que diferenciam os soldados. A maioria não tem noção de onde são, se são brasileiros ou jordanianos. Mas, de uma forma geral, a relação era bastante amigável. O Exército Brasileiro não trabalha apenas na parte militar, mas também na parte social, por isso o relacionamento é bem melhor. A gente não pode falar da técnica usada pelo Exército Jordaniano, mas o fato é que eles atiravam mais que os brasileiros. Evidentemente, que não sabíamos se era necessário ou não. </p> <p><strong>Comércio - Mas a situação não era tensa, por ser a maior favela e a mais violenta?<br />Wankarlo</strong> - Com certeza era tensa devido ao grande número de bandidos que moram lá. Sempre escutávamos troca de tiros, mas em geral entre eles, já que no local tem muita briga de gangues. </p> <p><strong>Comércio - Como foi no período eleitoral ocorrido no início do ano?<br />Wankarlo</strong> - Foi o período mais crítico durante os seis meses em que estivemos em missão. A eleição aconteceu em fevereiro depois de ser adiada várias vezes. Quando estávamos lá, deu uma amenizada porque os partidos políticos pediram para os bandidos darem uma trégua até passar o período eleitoral. Tínhamos que ficar neutros, porque nossa obrigação era promover a segurança até que as tropas da ONU não fossem mais necessárias. </p> <p><strong>Comércio - Você viu alguma diferença entre o mês de novembro, quando seu grupo chegou, e quando foram embora?<br />Wankarlo</strong> - Quando chegamos lá a maioria das lojas da principal avenida de Port-au-Prince permanecia fechada o tempo todo e também havia muito lixo na rua. Conforme foi ficando mais calmo, o comércio começou a reabrir as portas, os bancos começaram a ter movimento e pararam os saques em supermercados. No começo não havia nem como andar direito pelas ruas devido à grande quantidade de lixo. Hoje a situação está melhor. </p> <p><strong>Comércio - Como ficou a moral da tropa brasileira depois da morte do general Urano Teixeira da Mata Bacellar, que foi encontrado morto com um tiro, em janeiro, no quarto do hotel onde estava hospedado no Haiti? (O Instituto Médico-Legal de Brasília constatou que o general cometeu suicídio)<br />Wankarlo</strong> - Até aquele momento não havia ocorrido nenhuma baixa no Exército Brasileiro. No dia que aconteceu, eu estava de folga na base e navegando na internet. Foi quando soube da morte dele. Na verdade, quem estava no Brasil ficou sabendo antes de nós, que estávamos lá, porque o hotel ficava do outro lado da cidade e só depois as notícias foram chegando. Quem  trabalhava teve que continuar normalmente. </p> <p><strong>Comércio - O que essa experiência representará na sua carreira?<br />Wankarlo</strong> - Essa foi a minha primeira experiência fora do País. Dificilmente os soldados brasileiros participam de uma situação real. Na escola militar, aprendemos todas as técnicas de combate, mas não sabemos se realmente estamos preparados porque não colocamos em prática. A missão de paz no Haiti foi um privilégio para os soldados que foram. Além disso, podemos passar nossa experiência para os soldados que estão entrando no Exército Brasileiro. Comércio - Como era feito o contato com sua família?<br />Wankarlo - O contato era sempre feito pela internet. No começo, eu nem sabia mexer direito, mas aprendi. Depois descobri o Skype, e quando eu estava de folga chegava a falar duas vezes ao dia com minha mulher (Cleide Cristina Tavares Lima). Ouvi minha filha (Maria Eduarda) falar papai pela primeira vez através do Skype. Foi uma emoção muito grande. </p> <p><strong>Comércio - Qual sua lembrança mais forte do período em que esteve lá?<br />Wankarlo</strong> - O fato que mais me marcou aconteceu pouco tempo depois da nossa chegada. Estávamos em uma favela e um bandido, numa troca de tiros, acertou uma menininha no ombro. Eu a peguei e coloquei-a dentro do urutu junto com o pai, que estava desesperado. Depois de ser atendida no hospital, felizmente ela sobreviveu. Aquilo me marcou muito. E o bom é que ela sempre ia nos visitar quando estavamos na base na favela. </p> <p><strong>Comércio - Em algum momento você se arrependeu de ter ido para o Haiti?<br />Wankarlo</strong> - Não. Evidentemente que tem a hora da saudade da família. Mas sabemos que lá estamos fazendo uma coisa que é para o bem da humanidade, que são pessoas muito pobres. Víamos na cara das crianças que elas ainda têm uma pontinha de esperança em alguma coisa e os adultos estão bastante motivados em trabalhar e querer algo melhor para o país deles. Infelizmente, não podemos fazer mais que dar a segurança para os moradores. </p> <p><strong>Comércio - Você voltaria para lá?<br />Wankarlo</strong> - Por enquanto, não. Minha filha está muito pequena, preciso estar próximo dela neste momento. Talvez daqui a uns seis anos eu poderia até voltar.</p>

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