OPINIÃO

Sexo, poder, dinheiro e lixo

Por Zarcillo Barbosa | O autor é jornalista e articulista do JC
| Tempo de leitura: 3 min

Nos lençóis macios, amantes se dão... a fraudar a bilionária licitação para coleta do lixo de Bauru.

Os investigadores constataram que o carro de Hamilton Libório Agle, dono da Estre Ambiental, passava a noite em frente ao apartamento de Cilene Bordezan, secretária do Meio Ambiente. A moça o chamava de Hamiltinho e de "morzinho". Assim o acarinhava, em certas mensagens trocadas, para convencê-lo a dar um "querequerezinho" para o vereador que defendia bravamente, na Câmara, os projetos de interesse da empresa e rebatia os opositores. A IA informa que querequerezinho é uma expressão não dicionarizada, mas pode ter vindo de quirerinha, aquele milho de baixo valor colocado na trilha da capivara para atraí-la a uma fatal armadilha.

Sexo e dinheiro são dois dos maiores focos de desejo, tabus e conflitos na sociedade humana, assegurava Freud - "São dois prazeres que dominam o coração humano". Lembrei-me do genial Caetano, autor de uma canção interpretada por Gal Costa. O primeiro verso diz, "Sexo e dinheiro são/metro do nosso egoísmo". O compositor termina: "Não podem se cruzar/dinheiro é abstração/ sexo é concreção. E nos livremos do seu mal".

Nada contra Cilene e Hamilton se gostarem e transarem. A força instintiva que comanda a mente humana busca a gratificação pelo sexo. Mas não pelo dinheiro. Ainda mais dinheiro público. O patrimonialismo é a grande praga que empesteia o país. Aquele entendimento equivocado de que o Estado é bem pessoal, patrimônio de quem detém o poder. Altera-se o adágio "o Estado sou eu" para "o Estado é meu". O Estado se torna instrumento não para promover o bem público, mas apenas para satisfazer os prazeres privados e familiares, só porque o povo, sempre enganado, elegeu quem não devia.

Por causa do dinheiro (sexo é concretude), aquele casal e mais alguns estão presos e a prefeita Suéllen Rosim vai responder a uma Comissão Processante, na Câmara. Não é fácil cassar prefeito. Em 1998 os vereadores tiveram que cassar duas vezes Antônio Izzo Filho. Levaram 9 meses. Na primeira vez foi acusado de se omitir diante de denúncias de que assessores cobravam propinas para receber dívidas públicas. Por meio de liminar, retornou ao cargo. Na sua volta, ocorreram cinco atentados a bomba e tiros contra vereadores.

Foram presas sete pessoas que o comprometeram como mandante. Havia planos para assassinar o juiz e o promotor que atuaram no processo. Foi cassado por novas denúncias de cobrança de propinas de fornecedores, falta de decoro, omissão e negligência por 21 a Zero. Fugiu ao ser decretada sua prisão pelo juiz. Depois se apresentou para cumprir longa pena no antigo Cadeião da Baixada. Assumiu o seu vice Nilson Costa que, no segundo mandato em 2003 também foi cassado, acusado de improbidade administrativa, omissão e negligência no famoso caso da "carne da merenda escolar".

Comprou 75 toneladas de carne por R$ 340 mil. Notas fiscais atestavam o recebimento da mercadoria que não foi entregue. Dudu Ranieri assumiu a Prefeitura por 15 dias. Nilson obteve liminar na Justiça que suspendeu a cassação. A carne apareceu vinda de um frigorifico de Minas que nada tinha a ver. Alguém pagou.

Mais prático foi Renato Purini, marido da prefeita Suéllen. Quando vice-prefeito e presidente da Emdurb, em 2006. Contratou uma empresa para coletar o lixo sem licitação mesmo. Declarou emergência. Tuga Angerami, o prefeito, pressionou-o a demitir-se e anulou a terceirização. Purini, quando vereador, contratou uma assessora que nunca apareceu para trabalhar. Mandava o pai no lugar, que não tinha qualificações. Foi condenado por improbidade e a devolver R$ 1 milhão aos cofres públicos. Resistiu à execução por seis anos. Para poder assumir a presidência do DAE, fez um pix.

Coisas do Bauru, cidade de espantos.

 

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