OPINIÃO

Juros altos são consequência, não a causa do problema

Por Reinaldo Cafeo | O autor é diretor regional da Ordem dos Economistas do Brasil
| Tempo de leitura: 3 min

A economia brasileira dá sinais claros de perda de dinamismo. O consumo desacelera, os investimentos perdem força e diversos setores começam a sentir os efeitos de um ambiente econômico mais restritivo. Diante desse cenário, a crítica mais comum recai sobre a taxa de juros. Para muitos, a Selic elevada seria a principal responsável pela redução do crescimento. Embora exista uma parcela de verdade nessa avaliação, ela não conta toda a história.

É preciso compreender que os juros elevados não são a origem do problema. Na realidade, eles representam uma consequência de um desequilíbrio mais profundo: a fragilidade fiscal do país.

Em uma economia com contas públicas equilibradas, inflação controlada e expectativas positivas, o Banco Central possui espaço para reduzir juros de forma consistente. Afinal, o papel da Autoridade Monetária é garantir a estabilidade dos preços sem comprometer o crescimento econômico. Nessa situação, juros menores estimulam o consumo, favorecem o investimento produtivo e ampliam a geração de empregos.

O problema é que o Brasil vive uma realidade diferente. O aumento contínuo das despesas públicas, a dificuldade de estabilizar a trajetória da dívida e as incertezas em relação à sustentabilidade fiscal acabam elevando a percepção de risco dos agentes econômicos. Quando investidores, empresários e consumidores passam a duvidar da capacidade do governo de equilibrar suas contas, as expectativas de inflação se deterioram.

É justamente nesse ponto que o Banco Central é obrigado a agir com maior rigor. Os juros deixam de ser apenas um instrumento para controlar a inflação corrente e passam a incorporar um prêmio de risco associado à situação fiscal do país. Em outras palavras, a taxa básica acaba permanecendo acima do que seria necessário em um ambiente de equilíbrio fiscal.

O resultado é um círculo perverso. O governo gasta mais do que o mercado considera sustentável, o risco aumenta, as expectativas de inflação sobem e os juros permanecem elevados. Com crédito mais caro, famílias e empresas reduzem consumo e investimento, a atividade econômica perde força e o crescimento fica comprometido.

Muitas vezes, o debate público tenta apresentar uma falsa escolha entre crescimento econômico e responsabilidade fiscal. Na prática, os dois objetivos são complementares. Não existe crescimento sustentável sem credibilidade fiscal. Da mesma forma, não existe estabilidade fiscal duradoura sem uma economia capaz de crescer, gerar renda e ampliar a arrecadação.

Por isso, discutir apenas a redução dos juros é tratar o sintoma, e não a doença. O verdadeiro desafio está em construir uma trajetória fiscal confiável, capaz de reduzir a percepção de risco e ancorar as expectativas econômicas. Quando isso ocorrer, o Banco Central terá condições de conduzir uma política monetária menos restritiva sem comprometer a estabilidade dos preços.

O Brasil precisa compreender que juros elevados não são fruto de uma decisão isolada da autoridade monetária. Eles refletem a falta de confiança na capacidade do setor público de organizar suas contas. Enquanto essa questão não for enfrentada de maneira estrutural, dificilmente voltaremos a conviver com taxas de juros compatíveis com o potencial de crescimento da economia brasileira.

Em síntese, a retomada sustentável da atividade econômica passa menos pela pressão por cortes artificiais de juros e mais pela construção de um ambiente fiscal sólido e previsível. O crescimento não nasce do improviso. Ele é resultado da confiança. E confiança, em economia, começa pelo equilíbrio das contas públicas.

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