Há amizades que parecem improváveis. Pessoas de cidades diferentes, com histórias completamente distintas e que talvez nunca se encontrassem criaram um vínculo para a vida toda a partir de um gesto que começou no Hospital Amaral Carvalho (HAC) de Jaú (47 quilômetros de Bauru) com a coleta de medula óssea para um transplante realizado em Belo Horizonte, Minas Gerais.
A história de Neylor Chagas e Tharsis Paiva representa o Dia do Amigo, celebrado em 20 de julho. Em 2023, Neylor recebeu o diagnóstico de leucemia mieloide aguda e a rotina dele se resumia ao quarto do hospital, exames e tratamentos. "Na última internação, foram mais de 40 dias. Você vê a vida acontecendo lá fora, mas está parado", diz. O transplante de medula óssea, nesse caso, representaria a chance de uma vida nova. Ele foi realizado no dia 30 de junho de 2023.
Onze dias depois, veio a notícia tão aguardada: a medula havia "pegado", sinal de que o organismo estava respondendo favoravelmente ao procedimento. "A gente ganha uma outra chance. Passa a dar mais valor à vida", afirma Neylor.
Depois do procedimento, doador e receptor permaneceram anônimos, como prevê o protocolo. O contato entre eles só pode acontecer após o período de um ano e meio pelas normas do Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome), e depende da vontade de ambos.
Assim que foi permitido, Neylor enviou mensagem por meio do Redome manifestando o desejo de conhecer a pessoa que havia lhe dado uma nova oportunidade. Do outro lado, o interesse era o mesmo. Foi assim que ele conheceu Tharsis, o homem que se tornou seu doador de medula óssea.
E se tornaram amigos, da forma mais inusitada possível. Tharsis chegou a se hospedar na casa da família, compartilhando histórias, refeições e momentos que pareciam pertencer a amigos de longa data.
Depois, os dois viajaram juntos para Ilhabela, fortalecendo ainda mais o vínculo criado a partir de um gesto de solidariedade. "Ele é uma pessoa diferenciada, bondosa. Quem faz isso tem uma generosidade enorme e dá valor ao ser humano", diz o paciente.
O doador se diz grato pela oportunidade de conhecer o amigo e fazer a diferença na vida dele. "Ter conhecido o Neylor foi um bônus. Um gêmeo genético que pude participar da vida. E ver que sua recuperação foi um sucesso me dá muito orgulho da escolha de querer ser doador de sangue desde novo e me cadastrar no Redome. Assim, ganhei um irmão de sangue e sou muito feliz de fazer parte da vida dele", declara.
CADASTRO
Histórias como a de Neylor e Tharsis mostram que a doação de medula óssea pode transformar completamente a vida de alguém. Muitas pessoas que enfrentam doenças hematológicas dependem de um doador para ter uma nova chance.
Segundo levantamento da Sociedade Brasileira de Transplante de Medula Óssea (SBTMO) divulgado no ano passado, mais de 2.600 pessoas aguardam na fila pelo transplante no país. Para ser um doador, é necessário ter entre 18 e 35 anos, realizar cadastro num hemocentro ou hemonúcleo e manter os dados atualizados.
O Hospital Amaral Carvalho de Jaú é o maior centro de Transplante de Medula Óssea (TMO) do Brasil. Referência internacional, atende cerca de 90% de seus pacientes pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e já realizou mais de 4,8 mil procedimentos desse tipo.