Minha mãe tinha lá suas finuras de maneira. Dizia que espirros não deveriam ser contidos porque "faz mal à saúde". Mas também não deveriam provocar "escândalo" diante das visitas. Ensinava um jeito elegante de proteger os outros e evitar o vexame. Bastava cobrir a boca e o nariz com a parte interna do cotovelo, ou com um lenço. O acessório nem sempre havia disponível, disputado pelos cinco filhos.
Lembro-me que a ordem era "nunca usar as mãos nuas". Anos depois, entendi que não havia preciosismo Zarcillo Barbosa nesse ensinamento. Vi o charreteiro do Central Park, numa tarde fria de outono, procedendo daquele jeitinho. A utilização da parte interna do cotovelo para cobrir o rosto, mantendo as mãos limpas e longe das gotículas, realmente é coisa civilizada. Ou higiênica, pelo menos.
A dificuldade aumenta quando, além do espirro, é disperso muco abundante pelas fossas nasais. Aí, o constrangimento é inevitável.
Com a Covid 19, a mesma prática de mamãe foi ensinada em todos os manuais. Aprendi de uma vez que o "espirro elegante" envolve "quebrar" o braço e o antebraço e leva-los semidobrados ao nariz, como se sentisse um perfume.
Plutarco (46 d.C-120 d.C) historiador do fim do helenismo e biógrafo de "Vidas Paralelas", conta que Sócrates acreditava que o espirro, sendo uma manifestação espontânea, incontrolável, à qual o corpo não tem outra alternativa a não ser submeter-se, constitui um sinal divino, incentivo a continuar ou sinal para parar, conforme o caso. Como sofro de sinusite crônica, sei que de "divino" o espirro nada tem. Quando começo, a coisa vira um festival patético, sem a Sinfonia nº 6 de Beethoven. É difícil parar, mesmo com lavagens nasais e uso de corticoides.
Se para mim é duro, imagine para Jair Bolsonaro e suas crises de soluço - 40 por minuto - devido a esofagite e sequelas da facada. Afastada qualquer desavença ideológica, o sofrimento do ex-presidente merece respeito.
Ninguém diz "Deus te Abençoe" a alguém que soluça. Quando muito, "Saúde". O filósofo britânico Bertrand Russell (1872-1970), em sua "História da Filosofia Ocidental", explica o porquê do "Deus te abençoe": acreditava-se que no momento do espirro a alma saía. Invocar a Deus assustava os espíritos malignos, de modo a que não ocupassem a morada alheia.
O filosofo Soren Kierkegaard, dinamarquês, muito religioso - mas a sua maneira -, foi ousado quando mencionou "o êxtase de espirrar", como se fosse uma manifestação quase orgástica. Kierkegaard (1813-1855) foi o primeiro filósofo existencialista. Abusava da metáfora, da ironia e da alegoria. Explorou as emoções e os sentimentos individuais.
Walt Disney criou o simpático Atchim, personagem clássico de "Branca de Neve e os Sete Anões". Em inglês o nome dele é Sneezy, que significa espirro. Na onomatopeia vocalizada para espirro, na língua inglesa, seria Atchoo. O nosso Atchim é mais sonoro. Apesar da sua aflição constante com os reflexos alérgicos, o anão sempre esteve bem humorado nos desenhos, e disposto a travessuras com o companheiro Dunga.
Tenho a impressão que lá na Suprema Corte, há ministro que quando espirra nem se constrange em limpar o naso na toga. Alexandre de Moraes, em plena Terça-feira Gorda manda prender servidores da Receita Federal e do Serpro, para combater "possível vazamento indevido de dados sigilosos de ministros do STF". Pouco importa se a informação vazada diga respeito a contratos de R$ 130 milhões entre Vorcaro e a esposa de Moraes; muito menos se possivelmente desnude a negociação até hoje mal explicada de R$ 35 milhões entre Vorcaro e os Irmãos Toffoli. A possibilidade de descoberta de indício de crime é irrelevante. Em tese, gravar uma reunião secreta do Supremo e vazar à imprensa configura violação do sigilo funcional. Mas essa suspeita nenhum ministro fez questão de transformar em investigação.
Atchim!