OPINIÃO

A História se repete???...

Por Antonio Tidei de Lima | Ex-deputado federal e ex-prefeito de Bauru
| Tempo de leitura: 5 min

A história se repete primeiro como tragédia depois como farsa... A frase foi dita no sentido cômico, burlesco, de comédia, no teatro da vida, mas tornou-se uma  afirmação política através de Karl Marx, o filósofo. No Brasil, não foram raras as vezes que a história reuniu, no campo político, tragédia e farsa. O período dos 
governos do Getúlio Vargas, entre 1930 e 1954, tem exemplos que envolvem Luís Carlos Prestes, Cristiano Machado e o próprio Vargas, bem como seus partidos.
Porém, exemplos mais recentes permitem sermos “testemunha ocular da história”, lembrando o slogan do noticioso do rádio que marcou época, o Repórter Esso. 
Em meados dos anos 1970, depois do período Médici, os “anos de chumbo”, o Regime Militar sofrer fragorosa derrota nas urnas de 1974, o “ditador de plantão” 
General Ernesto Geisel e seu “braço direito”, o General Golbery do Couto e Silva, entendem que era hora de “bater em retirada”. O plano denominado “Abertura Lenta, Gradual e Segura”, começa removendo alguns instrumentos do Regime a começar pelo AI-5 em 1978, o bipartidarismo em 1979 e o fim dos Senadores biônicos em 1980. A Anistia proposta serve para ambos os lados.  
Dentro do próprio Regime há os que resistem a Abertura. Os operadores dos Porões da Ditadura insatisfeitos cometem abusos. Em outubro de 1975, morre no cárcere do DOI-Codi em São Paulo, o jornalista Vladmir Herzog e três meses depois, janeiro de 1976, morre na mesma prisão o metalúrgico Manoel Fiel Filho. Geisel, então, demite o Comandante do II Exército, Ednardo D’Ávila Melo. responsável pelas atividades no local. Em outubro de 1977 Geisel elimina mais um entrave à Abertura demitindo o General Sylvio Frota, Ministro do Exército. Aos trancos e barrancos, já no governo Figueiredo, acontece o fatídico Atentado do Riocentro, em 30 de abril de 1981, envolvendo o Exército e a Polícia Militar do Rio de Janeiro. A Ditadura agoniza. 
Porém, o eco das bombas do Riocentro não impediu as eleições diretas para os governos estaduais, em 1982. A Oposição saiu fortalecida do pleito elegendo 10 governadores, três nos principais estados do País, São Paulo com Franco Montoro, Minas Gerais com Tancredo Neves e Rio de Janeiro com Leonel Brizola. O deputado Ulysses Guimarães, o “Dr. Ulysses”, com sua experiência herdada do antigo PSD do “Dr. Getúlio” enxergou, a partir daí, uma brecha no calendário político entre final de 1982 e janeiro de 1985, quando aconteceria a eleição para Presidente da República no Colégio Eleitoral. Estava em jogo o coração do Regime.  
Ulysses, então, lança, no final de 1983, a campanha pelas Eleições Diretas para Presidente da República. Recolhe dentre dezenas de propostas de Emenda Constitucional a mais simples, com apenas três artigos, de autoria do deputado novato Dante de Oliveira, do Mato Grosso. A Campanha das Diretas mobilizou milhões de pessoas em comícios pelo Brasil afora. Mesmo assim, a Emenda Dante de Oliveira, em 25 de abril de 1984, é derrotada na Câmara, faltaram 22 votos, indo direto para o Arquivo. As Diretas, sem que se percebessem, “matou” a Ditadura.
Tancredo era o nome possível para “enterrá-la”, no Colégio Eleitoral. Porém, o experiente mineiro estava recalcitrante, dizia com razão, “não posso trocar o Governo 
de Minas por uma aventura, por mais bela e honrosa que possa ser”.  Ulisses, o “Senhor Diretas”, inicialmente contra a ideia de ir ao Colégio Eleitoral, vaidades a parte, convenceu-se que ir seria uma “resposta” aos milhões de brasileiros que foram às ruas na campanha pelas “Diretas”. Era preciso arranjar votos no Colégio 
Eleitoral, suficientes, para derrotar o Regime Militar, a esta altura capenga.
Em 11 de junho de 1984, o senador José Sarney, presidente do PDS, convoca uma reunião para discutir a escolha do candidato do partido e propõe que seja feita uma Prévia para tal. Derrotada sua proposta, Sarney renuncia a presidência do partido. O caldeirão político ferve. Maluf, com apoio do General Golbery, vira a candidatura favorita para vencer a convenção do PDS. O grupo pró Abertura, com Aureliano, ACM e Marco Maciel no palco e Geisel na coxia, procura contato com o PMDB e propõe uma chapa Tancredo com Sarney de vice, era para não ter dúvidas da vitória no Colégio Eleitoral. O recado veio através de dois Fernando’s, o Lira e o Henrique, aos peemedebistas reunidos aguardando a proposta dos antimalufistas do PDS.
A partir daí começa a se formar a Aliança Democrática, o PMDB e dissidentes do PDS já compostos na Frente Liberal que viria depois ser PFL. Tancredo deixou o governo de Minas e o Sarney, por força da legislação vigente, saiu do PDS e se filiou ao PMDB em 12 de Agosto de 1984 durante a Convenção do PMDB. Em 15 de janeiro de 1985, o Colégio Eleitoral reuniu-se e Tancredo Neves foi eleito presidente, para um mandato de seis anos (ironia do destino), com 480 votos (72,4%) contra 180 dados a Maluf (27,3%). A Ditadura estava enterrada.  
A história política republicana no Brasil é rica em alianças que acabam reunindo personagens conflitantes sob um mesmo guarda-chuva. O exemplo de Tancredo e 
Sarney tinha o objetivo de “sair” de uma ditadura e foi uma epopeia a luta para sair da Ditadura. O presente momento, com a eleição presidencial pode ser importante para não entrarmos numa ditadura. A aliança entre PT e PSB, costurada por Márcio França com Geraldo Alckmin como Vice de Lula, é uma engenharia política que visa não precisarmos, no futuro, travar luta semelhante a anteriormente narrada. Não é preciso afirmar que o Lula não é o Tancredo e nem o Alckmin é o Sarney. Espera-se que a história, neste caso, não se repita nem como farsa nem como tragédia.

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