OPINIÃO

Quando a crueldade vira sintoma

Por João Carrara | O autor é professor e colaborador de opinião
| Tempo de leitura: 2 min

O cachorro Orelha não morreu apenas espancado. Morreu cercado por um silêncio anterior — o silêncio de adultos que não olharam, não ensinaram, não interromperam. Cinco adolescentes participaram. Cinco histórias em formação. Cinco sinais de que algo está profundamente fora do lugar.

Há quem diga: “é fase”, “é imaturidade”, “o cérebro ainda está em desenvolvimento”. A neurociência, de fato, nos ensina que o cérebro adolescente ainda está em construção, especialmente nas áreas ligadas ao controle de impulsos, empatia e julgamento moral. Mas ela também ensina outra coisa, muitas vezes esquecida: ambiente molda cérebro. Violência repetida, discursos de ódio, banalização da dor, ausência de limites e adultos emocionalmente ausentes não passam incólumes pelo sistema nervoso em formação.

O que vemos não é ingenuidade. É dessensibilização.

Não é brincadeira que saiu do controle. É uma brutalidade que foi aprendida, tolerada ou ignorada.

Pais que “não sabiam”. Escolas que têm medo de educar. Educadores acuados, andando em ovos para não desagradar, para não tocar em temas “sensíveis”, para não serem mal interpretados. Enquanto isso, a ira cresce. Uma ira coletiva, intensificada desde a pandemia, normalizada nas redes, travestida de opinião, fé ou moralidade — mas que explode sobre os mais vulneráveis.

Isso não é direita nem esquerda. Não é política partidária. É responsabilidade civilizatória.

Cidadãos que dizem honrar pai e mãe, amar a Deus, respeitar a vida e seguir a figura de Jesus não podem aceitar a neutralidade diante da crueldade. Ficar em cima do muro, nesse caso, não é prudência — é omissão.

Educar nunca foi apenas ensinar conteúdos. É formar consciência, empatia, limite, responsabilidade. Se a escola se cala por medo, se a família terceiriza o cuidado, se a sociedade relativiza o inaceitável, o resultado não é liberdade: é barbárie.

O caso de Orelha não é um ponto fora da curva. É um alerta.

E talvez a pergunta mais dura seja esta: até quando vamos chamar de “fase” aquilo que já é falha estrutural?

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