OPINIÃO

O lugar do outro

Por Claudia Zogheib | A autora é psicanalista, especialista pela USP – Departamento de Psicologia e Psicóloga Clínica formada pela USC
| Tempo de leitura: 2 min

É difícil entender o que se passa na cabeça e no coração de quem tem coragem de maltratar um cachorro que só dá amor, é fiel e proporciona tanta alegria.

Orelha, um cão comunitário e amado provoca indignação pois sua morte não é apenas um episódio isolado, mas um alerta doloroso sobre uma geração exposta ao excesso de tecnologias que banalizam a violência e transformam a dor em entretenimento.

Quando a brutalidade leva adolescentes a matarem um cão, no mesmo instante me pergunto o que lhes motivou ter coragem para este monstruoso ato que nos coloca diante da mesma pergunta que a série “Adolescência” provocou, quando lá, a vítima era uma amiga.

Será que eles estão sendo cultivados na perversidade e omissão de seus educadores, sem espaços comunitários e na família, sem a presença de pessoas que cultivam a generosidade, o amor a qualquer ser vivo, com pais que participam de suas rotinas e lhes ensinam a partir de exemplos a serem indivíduos que querem o bem das pessoas?

Onde começou tamanha destrutividade? Quais foram os erros, os deslizes que não foram corrigidos e ensinados? Outro dia assisti um vídeo onde haviam pais brigando ao invés de apartar a briga de seus filhos num local de lazer, em plenas férias.

Diante de todas estas situações trágicas, precisamos conversar sobre como estamos educando os futuros adultos. Será que as crianças estão entendendo o valor do respeito? Precisamos estar atentos, criando diálogos sobre cuidar, enxergar a dor do outro, respeitar, ser empáticos, generosos.

Estamos com muitas perguntas sem respostas, querendo entender onde as pessoas se perderam quando tem coragem para agressões de qualquer tipo: verbal, corpórea, de omissão, e quando cometem atrocidades.

São pessoas que não aprenderam sobre valores, adolescentes e jovens que brigam, excluem, matam, exercendo sua própria destrutividade.

A indignação só poderá ser diluída quando nós adultos pudermos pensar, refletindo sobre as próprias atitudes e o que ensinamos quando omissos, não prestamos atenção nos sinais que os filhos estão nos dando.

Queremos filhos, mas não temos tempo para eles, terceirizamos cuidados não sabendo o que se passa na mente deles e o que precisamos ajustar como família e sociedade porque, quando assistimos um grupo matar um cão, pais brigando, um menino matar uma colega, em graus diferentes, são efeitos e produtos da mesma questão.

É muito triste ter que assistir a tudo isto.

Música: “Canção da América”, com Milton Nascimento.

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