OPINIÃO

O passageiro paga, o motorista sofre e o app lucra: quem ganha?

Por Guilherme Pianezzer | O autor é colaborador de opinião
| Tempo de leitura: 3 min

Nos últimos meses, muita gente passou a sentir no bolso algo que antes era quase automático: chamar um carro por aplicativo ficou bem mais caro. A alta não é pequena – dados do IPCA apontam aumento de 56,08% em apenas um ano, chegando perto de 70%, em algumas capitais. Ao mesmo tempo, a presença desse tipo de serviço se expandiu pelo país: entre 2020 e 2024, o número de municípios com carros por aplicativo subiu de 878 para 1.465, um salto de 64,4%, de acordo com o IBGE. O paradoxo está posto: o serviço se populariza, mas encarece rapidamente. A teoria dos jogos ajuda a entender por quê.

No equilíbrio de Nash, cada agente toma a melhor decisão possível dado o comportamento dos outros – e, nesse ponto, ninguém tem incentivo para mudar o que está fazendo sozinho. É exatamente assim que o mercado de corridas por aplicativo parece estar funcionando hoje. De um lado, os motoristas enfrentam aumento de custos operacionais e buscam corridas mais vantajosas, preferindo horários e regiões de maior retorno. Do outro, as plataformas ajustam tarifas e reduzem subsídios para alcançar a “sustentabilidade financeira”, além de incorporar mecanismos como a tarifa dinâmica. Já os passageiros, sem alternativas equivalentes em tempo e conveniência, continuam demandando o serviço – ainda que com incômodo.

O resultado é um equilíbrio em que todos continuam jogando, mas nem sempre satisfeitos. Motoristas trabalham para obter renda compatível, passageiros pagam mais e as plataformas tentam equilibrar crescimento e rentabilidade. E mesmo que o cenário seja, no conjunto, socialmente pior (mais custo, mais estresse urbano, maior desigualdade de acesso), ninguém consegue mudar sua estratégia individualmente. Se o motorista aceitar preços menores, perde renda; se o passageiro insistir em pagar menos, não encontra corrida; se a plataforma reduzir a tarifa sem critério, arrisca desorganizar a oferta e usa a própria margem.

Só que o equilíbrio de Nash não é sinônimo de “melhor resultado”. Aí entra o conceito econômico “Ótimo de Pareto”: uma situação em que não é possível melhorar para alguém sem piorar para outro – e, idealmente, uma organização econômica que pode elevar o bem-estar geral. No caso das corridas de aplicativo, isso significaria buscar um arranjo em que o sistema entregue preço mais previsível ao usuário, renda estável ao motorista e viabilidade econômica às empresas, reduzindo o desperdício gerado pelos congestionamentos, escassez local de motoristas e oscilações extremas de tarifa.

Mas chegar mais perto desse ótimo exige algo que o mercado sozinho raramente entrega: coordenação e incentivos. Políticas públicas e regras claras podem atuar como “mecanismos do jogo”: integração com transportes público, zonas de embarque organizadas, transparência da tarifa dinâmica, incentivos à eficiência com rotas e horários otimizados, e modelos que reduzam a instabilidade de ganhos e preços. Em outras palavras, é preciso mudar o desenho do jogo – não apenas culpar os jogadores.

No fim, o aumento das tarifas não é apenas um “abuso de preço” nem um fenômeno isolado: é o sinal de que o sistema entrou num equilíbrio onde cada decisão individual faz sentido, mas o resultado coletivo piora. A pergunta que fica é: vamos aceitar esse equilíbrio como inevitável ou vamos redesenhar as regras para que todos consigam ganhar?

O autor é doutor em Métodos Numéricos pela UFPR, professor em Matemática Financeira e professor-tutor dos cursos de Exatas do Centro Universitário Internacional Uninter. É autor de mais de 10 livros nas áreas de matemática, estatística, economia e educação financeira.

Comentários

Comentários