OPINIÃO

Reciprocidade

Por Cinthya Nunes | A autora é é jornalista, advogada, professora universitária e não gosta de gente aproveitadora
| Tempo de leitura: 3 min

Os anos se sucedem, algumas coisas mudam, mas para além de criarmos expectativas sobre as atitudes dos outros, é essencial que as mais importantes mudanças venham de dentro de nós. Esperar somente pelas alheias é dar poder a quem não merece e abandonar o leme da vida. A questão, entretanto, é que isso é mais simples na teoria do que na prática.

Tudo começa com uma alteração no olhar que temos sobre nós, sobre os outros e sobre a nossa relação com as pessoas que convivem conosco. Para 2026, particularmente, entabulei um desafio para mim: quero reciprocidade, inclusive a minha quanto ao próximo. Não me refiro, porém, à exata medida das coisas, como se tudo fosse uma troca balizada pela Lei de Talião.

Tenho como meta individual observar como trato as pessoas, se devolvo a elas todas as gentilezas, o carinho, a atenção, a consideração. No correr dos dias atribulados, posso ter negligenciado isso em alguma medida, sem perceber. Embora eu procure ser atenciosa com as pessoas, de forma geral, o vigiar deve ser constante. Se for para magoar ou desagradar alguém, que seja por opção, não por descuido.

Por outro lado, pretendo me afastar daqueles que só se lembram de mim quando algo lhes interessa. Por óbvio que não me refiro às situações de trabalho, profissionais, nas quais as regras e a dinâmica são outras. É no campo das supostas amizades onde colocarei, mais do que nunca, a reciprocidade como norma de conduta. Amizade, registre-se, não é o mesmo que coleguismo.

Nas relações de afeto, onde há reciprocidade há troca. É o carinho de uma palavra que surge quando não se espera, é o conforto do abraço que consola, da mão que estende quando ninguém está vendo que o poço se abriu diante de nossos pés. Quando a reciprocidade existe, sabemos que a pessoa, dentro de suas condições afetivas, estará por perto, terá uma palavra de apoio ou, quando necessário, de alerta.

Por outro lado, não há reciprocidade quando alguém se aproxima de nós apenas por aquilo que podemos lhe oferecer. Já no começo deste ano, lembrei-me disso quando uma pessoa a quem sempre ajudei, sobretudo, mas não exclusivamente, financeiramente, devolveu-me palavras agressivas quando não pude fazê-lo. Percebi que, na cabeça dela, o que era liberalidade tinha passado a ser obrigação.

Por sorte, a imensa maioria das minhas relações pessoais é feita de reciprocidade, que inclui também entender o não do outro. A reciprocidade, porém, envolve ainda uma forma de negar. Nem sempre podemos entregar ao outro o que ele deseja de nós, mas há formas de dizê-lo. Se uma pessoa nos agride, ainda que verbalmente, nas miudezas de um simples não, o erro passar a ser nosso, se nos mantivermos por perto. Não se trata, ressalto, de ser exigir retorno exato, mas de ser digno de consideração.

Lembro-me do meu avô paterno, há tantas décadas falecido, que me contou, certa vez, que fazia fiado o pão para algumas pessoas que alegavam não terem dinheiro e estarem com fome. Ele também era humilde e precisava vender o pão para comprar a farinha. Ainda assim, ajudava. Nos dias seguintes, porém, as mesmas pessoas atravessavam a rua para não cumprimentá-lo e, se arrumavam dinheiro, iam comprar pão em outra padaria. É sobre isso.

O que dói e, no meu caso, doeu, é constatar que as pessoas simplesmente se esquecem do que lhe convém, construindo narrativas que variam conforme tem ou não suas vontades atendidas, unilateralmente. Meu maior desafio para o ano que já se adianta, assim, é muito maior do que me cercar de reciprocidade, de me afastar daqueles para os quais sou apenas uma utilidade. Acima de tudo, é cuidar para não ser para ninguém, esse tipo de pessoa.

Como já diz o ditado, “nada envelhece mais rápido do que favor prestado”. Fato, infelizmente. Continuar prestando favores a quem é incapaz de consideração, porém, é opção. Se for caridade, é um departamento. No mais, pode ser tudo, menos amizade.

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