OPINIÃO

O casamento do Brad Pitt

Por Cinthya Nunes | A autora é jornalista, advogada, professora universitária
| Tempo de leitura: 3 min

Admito que tentei não escrever sobre o fato, mas de tanto assistir a vídeos e comentários nas redes sociais, acabei não resistindo à tentação.

Para situar o leitor, refiro-me ao caso de uma gaúcha de 54 anos que acreditou estar em um relacionamento virtual com o famoso ator de Hollywood, Brad Pitt.

De acordo com a primeira versão dos fatos que circulou pela internet, ela afirmava que eles tinham planos de se casar e que ele viria morar no Brasil, em uma pequena cidade do Rio Grande do Sul.

Depois que os funcionários do aeroporto de Erechim chamaram a polícia, diante da narrativa um tanto inusitada da mulher, é possível ouvi-la afirmando isso. Segundo consta, mesmo diante das advertências das autoridades de que ela caíra em um golpe e que até poderia estar em risco, a mulher optou por seguir esperando o seu prometido.

O fato virou, creio, uma das notícias mais comentadas no Brasil. Por alguns momentos, ouso dizer, Trump e Maduro ficaram em segundo plano, eclipsados pelo caso de amor entre o ator e a Dona Maria.

Admito que alguns comentários dos internautas são muito engraçados e espirituosos, outros são de incredulidade, de preocupação e, infelizmente, outros tantos são de escárnio, ofensivos.

Diante da repercussão inesperada, Dona Maria resolveu mostrar a cara, afirmando que tudo fora uma brincadeira para o filho, adolescente. Casada, afirmou que vem sendo alvo de chacotas, hostilizada e ridicularizada, inclusive por familiares. Lembrou-me o caso do pastor que, flagrado de peruca loira, salto alto e calcinha fio dental vermelha, afirmou estar em uma investigação. Enfim, notícia velha já.

Acredito que, seja como for, o fato suscita reflexões. Honestamente, parece-me que não era uma brincadeira, mas, se foi, não deve ter a menor graça agora. Nessas horas é que a minha geração agradece por não existirem celulares com câmeras na juventude. Em tempos de internet, tudo se perpetua e ganha alcance incalculável.

A crença inicial dela de estar, de fato, envolvida com o ator, deu-se por conta de chamadas de vídeo. Se realmente ela foi enganada, no que eu creio, ignorou o que hoje a IA é capaz.

A mistura de gente desonesta, tecnologia e pessoas carentes é perigosa. Conheci pessoalmente homens e mulheres que caíram em golpes dados pela internet, sendo uma delas uma idosa com mais de oitenta anos, que perdeu quase duzentos mil reais.

Os golpes do amor, no entanto, não são fruto da modernidade. Existem desde sempre. Ganharam agora, porém, uma forte aliada: a tecnologia. Os antigamente chamados “golpes do baú” vitimaram muitas pessoas.

O que também não é novo é o sentimento de vergonha que assola as vítimas, impedindo-as, na maior parte dos casos, de denunciar os farsantes.

Tudo isso é muito triste, expondo o pior da sociedade. A falta de escrúpulos de quem usa o sentimento, a carência, a ingenuidade dos outros para se dar bem, para usurpar, de forma covarde, o patrimônio alheio, é algo a ser combatido.

No entanto, o que se nota é o ataque à vítima, para a qual não se economizam xingamentos, como se a culpa residisse no ridículo de se considerar digno de outra pessoa. Não se trata de romantizar a situação, mas sim de identificarmos os pontos de fragilidade, de educarmos as pessoas, de acolhermos aqueles que, em algum momento, por algum motivo, ficaram vulneráveis.

Talvez, se a polícia não tivesse agido, ela pudesse ter se tornado uma vítima de um crime contra a vida. Provavelmente nunca saberemos. Mas a morte social também pode ser fatal, para o corpo e para a alma. Como a Dona Maria, há tantos outros e outras. No fundo, de um modo ou de outro, ninguém está livre de ser enganado.

Enfim, se foi uma brincadeira, podemos rir com ela, quem sabe até fazer um apelo para o Brad mandar um alô verdadeiro? Se não for, é preciso entendermos, acima de tudo, do que e de quem estamos rindo.

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